Com licença, eu vou descer.

яєℓ | ask.fm/KrwaweTrampki

Eu sei que aquele dia que eu decidi aparecer eu não pedi licença mas agora, se você permitir, eu vou pedir. E eu também vou pedir mais uma série de coisas que talvez você nunca pensasse que eu pediria então eu aconselho que você tenha um pouco de paciência. Talvez seja difícil ouvir tudo isso sem explodir já que você parece uma panela de pressão, mas é como eu te disse naquela noite em que você não queria conversar: Nós estamos pendurados por uma rede na beira de um abismo e se você não suportar a pressão, os dois vão cair. E é por isso, que com toda a calma e delicadeza do mundo eu te aviso que vou voltar para o chão.

Você não percebeu que a gente estava subindo alto demais, eu sei. Eu pelo contrário sabia bem onde estava pisando. Você sabe que é impossível me surpreender com qualquer coisa já que meu nível de expectativas é tão alto que eu já imaginei tudo o que vai e o que nunca vai acontecer. Mas sabe, estava tão divertido subir que eu não pensei que talvez precisasse te avisar da altura.

Então num dia quando eu te perguntei o que a gente tava fazendo ali você decidiu olhar para baixo e se assustou. Começou a falar um montão de abobrinhas e eu fiquei com tanto medo de cair que segurei em você e na rede bem forte. Você decidiu parar para descansar, mas a verdade é que a gente está ficando cada vez mais cansado.

Não dá ficar aqui pra sempre. Nesse morninho gostoso que parece toda hora que vai esquentar, mas não esquenta nem esfria. Nesse copo de cerveja pela metade a espera o garçom que vai completar ou da boca que vai tomar. Nesse sol atrás da montanha que não sabe se nasce ou se põe. Então se você não quer continuar subindo comigo, eu acho que é melhor eu descer assim devagarinho, como quem não quer nada (embora eu queira tudo).

Não foi nada que você disse. Também não foi nada que você fez. É só que, cara, não da pra continuar no meio do caminho quando a gente sabe que lá em cima tem infinitas possibilidades. E sim, eu sei que nós estamos no meio do caminho e que voltar para o chão parece burrice, mas eu acho que só você não percebeu que a gente não vai sair daqui.

Hoje não é um dia para te pedir desculpas pela minha falta de paciência. Também não é um dia para te pedir por favor para subir. A palavra mágica da vez é outra: Com licença, eu vou descer.

Vou descer porque não quero ser mais uma estátua, porque eu sei que lá embaixo tem um monte de gente que quer subir e porque eu tenho medo de cair, mas olha só: eu enfrento meus medos.

Vou descer porque a corda que segura a gente tem prazo de validade e de tanto ficar travada no mesmo lugar uma hora vai arrebentar.

Vou descer porque o tempo que eu to aqui esperando essa porcaria subir já dava para ter subido e descido cinco vezes.

Vou descer porque enquanto você tem medo de velocidade, eu tenho medo de freio e eu sempre preferi voltar pra traz do que ficar parada.

Desci.

A maldição da não iniciativa e minha tendência a gostar de sacos de batata

Dedo podre.  Incontáveis vezes eu já ouvi essa expressão quando amigas sofriam na mão de cafajestes. Aliás, é quase uma regra que toda mulher tenha trombado com um cafajeste no meio do caminho. Algumas insistem nisso durante muitos anos. Porque o cafajeste quase sempre puxa assunto, dá um banho de elogios, chama para sair e não faz ninguém perder tempo. O problema é a rotatividade. Cafajestes não costumam ficar.

Bastou um ou dois para eu me tornar uma exceção a regra. A tendência pra mim, é se sentir atraída por sacos de batata. Daqueles bem bundões mesmo. Que vivem na base da indireta e te obrigam sempre a dar o primeiro passo. E o segundo. E o terceiro. E quando você percebe está caminhando sozinha faz tempo e o cara ficou lá atrás. Só que eu nunca tive paciência de voltar e buscar. Deixo lá. Plantado no meio do caminho com mofo crescendo no cabelo enquanto vê a vida passar.

Pior que um saco de batata, só um saco de batata metido a cafajeste. Que decide de uma hora para outra mudar de profissão mas sai tropeçando desajeitado por aí esbanjando testosterona nas fotos do facebook. Meros Dom Casmurros que jamais chegarão ao nível de dissimulação das Capitus.

Concordo que iniciativa é unissex. Concordo também que mulher que investe é mulher decidida. Mas tem hora que cansa. Quer dizer, não to fazendo a cinderela esperando o príncipe no cavalo branco. Mas subir no cavalo para buscar o príncipe dá uma preguiça. Mesmo porque, ninguém quer perder viagem para correr atrás de gente que não gosta de olhar pra frente. Cara que fica lá, atrasado, inseguro e pegando presa fácil na maioria das vezes não vale a pena.

O legal é encontrar alguém para caminhar junto e que toque na mesma frequência que você. Gente que não tenha medo de tomar um fora quando toma a iniciativa. Gente que não tenha medo de parecer babaca. Aliás, que prefira ser babaca a um saco de batata.  Que não fique te atrasando e nem te acelerando. Que trombe com você porque tomaram o mesmo caminho e que decida te acompanhar. Sem pedir permissão. Sem esperar que alguém o leve pela mão.

Um cara que arrisque a tempo, antes que você risque ele da sua vida.

Pra você que não diz nada

O dicionário é grande demais para o tanto de palavra que não deveria ter sido inventada. E só quem já sentiu a dor das frases (mal)ditas, sabe do poder cortante que elas podem ter. Mas acima de tudo isso, ainda não existe algo que doa mais do que coisas não ditas.

Porque tudo o que a gente não diz fica guardado em grandes arquivos mortos dentro de nós. Sufoca, confunde, machuca e trava os sentimentos bons que deveriam correr livres de uma pessoa para outra.

E é por isso que eu venho te dizer,que você deveria expulsar aquele monte de coisa que nunca teve coragem. Por um simples capricho de querer se esvaziar de todas essas vogais e consoantes que as vezes te escapam pelos olhos ainda que você diga que não. Você sabe muito bem que choro não é só aquilo que as pessoas cultas costumam ouvir enquanto a gente escuta música barulhenta. É aquela coisa que você insiste em negar que faz de vez em quando para se livrar desse inchaço de alma provocado por você mesmo.

Eu sei que as vezes digo muitas coisas até quando fico calada, porque eu tenho mesmo essa necessidade de te manter sabendo de tudo que acontece na minha vida, para que eu possa me manter vazia. O que é impossível, porque eu sou tão cheia de tudo que se eu não falasse metade do que eu falo provavelmente transbordaria o triplo e mataria o mundo todo afogado.

Pode ser que te dê aquela dorzinha chata que parece motorzinho de dentista quando eu digo o que você não gostaria de ouvir e é por isso que eu te dou a liberdade de metralhar palavras na minha cabeça quando desejar, mas por favor fale!

Porque eu e o mundo todo estamos prontos para te ouvir e você mesmo sabe que essa mania chata de só soltar asneiras o tempo todo enquanto guarda para si mesmo as falas importantes, não te ajuda a viver. E eu já to cansada de ouvir você reclamar de que o mundo não precisa te entender e que você não se preocupa com isso. Aliás, você não se preocupa por nada e eu me preocupo por mim e por você. Então, fala cara!

Fala tudo o que você sempre quis falar, na hora que você quiser. Conta pra gente porque você fecha a cara de vez em quando ou porque resolve sair sozinho por aí enquanto eu fico em casa pronta para te ouvir quando você precisar.

Conta logo, porque eu ainda estou aqui. Conta agora, porque você sabe que eu sempre vou estar. Conta tudo, porque você pode ir quando quiser, mas pode ser que meus ouvidos estejam ocupados com outras palavras quando você voltar.

 

Carta para um amor superado

Oi,

Eu to te escrevendo pra dizer que eu te superei. E acho que você já sabe disso porque há dois anos eu não procuro saber onde você está e o que está fazendo. Eu também passei a evitar encontros casuais e me limitei a ficar distante dos lugares que você poderia aparecer. Mesmo que você não aparecesse neles nem quando eu te procurava. Eu te superei de um jeito que por mais que eu ainda sinta aquele arrepio desagradável na espinha quando escuto seu nome, agora eu permito que as pessoas o pronunciem desde que seja de forma rápida e mantendo um tom de voz ameno.

Eu estou escrevendo para dizer que eu superei a sua foto amassada que ficava dentro da minha bolsa e eu pegava quando queria lembrar de você. Superei até aquela lembrança do nosso quase último encontro que eu guardava bem escondida dentro da gaveta de meias. Joguei tudo fora, cada lembrança que restava em mim de você ou de nós. Tudo que poderia ter um vestígio do que você é, eu me livrei. Eu parei de me preocupar com quem você estava, onde você estava e se algum dia você ia aparecer aqui por perto. Eu te superei num nível que eu não precisei mais escrever sobre você durante muitos meses da minha vida. Porque acho que agora eu estou inflando mais devagar e antes eu era tão cheia de você que precisava esvaziar por algum lugar e eu preferia escrever do que chorar. Ainda que no fundo eu soubesse que toda vez que eu fosse escrever sobre você cairia uma lágrima daquelas fugitivas.

Eu superei aquela história de dormir mexendo os dedos da mão direita como se te fizesse uns cafunés. E ao invés de contar teus fios de cabelo eu passei a contar carneirinhos, como a maioria das pessoas. Aquele meu medo de você me assombrar a noite quase sumiu, hoje eu já apago a luz principal do quarto e consigo ficar tranquila só com um abajur. Quer dizer, menos nas datas especiais como o dia do seu aniversário e o último dia que a gente se viu antes de eu te superar.

Hoje eu conto nos dedos as vezes que chorei lembrando de você e garanto que elas quase não existiram nos últimos anos. Foi mais no primeiro mês, quando acontece aquela fase de aceitação e a gente quase desidrata achando que dá pra lavar o coração. Na verdade não da não. O meu continua sujinho sujinho, mas tudo bem porque eu superei.

São poucas as vezes que eu sinto seu cheiro no meio da multidão. Agora acontece só quando eu bebo demais. E é nessa hora que eu ouço sua voz também. Geralmente quando eu vou deitar meio tonta eu escuto você dizendo que é para eu dormir de lado para que não me asfixie durante a noite e uma série de broncas que as pessoas que se preocupam, dão quando veem alguém de quem gostam bêbado. Na semana passada enquanto eu escrevia um trabalho para a faculdade eu pude jurar que te ouvia dizendo aquilo que você sempre dizia: que meus dedos compridos batendo nas teclas do computador e soltando sentimentos parecem com o de uma pianista tocando uma canção de amor. Sempre achei isso uma bobagem e hoje acho ainda mais, porque é visível que eu te superei.

Aconteceu de eu publicar um livro que tem mais você que letra A (agora parafraseando com todo o respeito Clarice Falcão). E acho que você se orgulharia disso, já que livros fazem parte daquela sua imagem culta, da qual você nunca abre mão.

No último final de semana minhas amigas falaram muito sobre você, porque elas sabem que agora não tem problema nenhum, já que eu te superei. E cada vez que elas diziam o seu nome, não sei se por mania ou por estresse, eu dava uma piscadinha com o olho esquerdo. Uma coisa que chamo secretamente de “tique de você” que foi uma das poucas coisas que restou desde que eu te superei.

E é porque eu te superei que eu venho te dizer que os teus olhos já não tem o mesmo significado para mim. E que eu só os vejo toda noite quando fecho os olhos ao deitar. Isso demonstra um grande ato de superação, já que eu costumava enxergá-los todo dia, sem parar. E é ao deitar que meu coração sujinho me pergunta se eu não gostaria de pedir a Deus pela sua eterna felicidade. Pergunta se eu não gostaria de rezar um pouquinho para que você esteja bem onde quer que esteja e mais do que isso, que esteja sendo amado por alguém que sinta que vai explodir de tanto você que tem dentro dela. Pergunta se eu não poderia deixar sair bem de fininho duas lágrimas que gostam de passear pela noite, e eu deixo porque você sempre me disse que todo mundo merece ser livre. E é da superação que eu me liberto debaixo de todos os lençóis e edredons, no quase escuro do meu quarto vazio, no incômodo do meu travesseiro molhado, nas minhas mãos que ora parecem de pianista e outrora de maluca que mexe os dedos fazendo cafuné em alguém que já foi superado.

 

Sobre sonhos e saudade

De vez em quando da saudade daquele  monte de história interrompida que a gente esqueceu porque tinha muita coisa pra fazer. E foi deixando pra traz por se tratarem de histórias curtas e complicadas demais  para perdemos tempo tentando fazer funcionar. E desconsideramos os pequenos momentos de fascínio que acontecem quando a gente percebe que algumas pessoas simplesmente estão destinadas a encontrar com outras, porque juntas são melhores.

Mas aparece uma ou outra complicação da vida e a gente abstrai, adormece, deixa pra lá. E de vez em quando tem um daqueles sonhos reais que poderiam muito bem ter acontecido. Aqueles sonhos que podem ter coisas boas ou ruins, mas que a gente não se importa porque ta do lado das pessoas certas. Aqueles sonhos que são bons simplesmente pela companhia e que te fazem pensar na hora de acordar que tem gente que a gente deveria ter pedido para ficar.

E não teve briga, impedimento, confusão. A gente só foi usando  desculpas pequenas para evitar o convívio e não mudar nossa rotina, e não alterar nossas convicções. Até que a distância acomodou e ficou estranho ser simpático. E ficou incomum perguntar da família ou dos sonhos pro futuro. E deu saudade. E deu vontade de ir atrás e dizer alguma coisa engraçada só pra ouvir uma risada familiar. E deu arrependimento por não ter gravado cada conversa produtiva no meio do monte de besteira que sempre era dito, só pra lembrar de vez em quando.

Deu esperança também. Sempre dá. Porque ao contrário do que dizem ela não é a última que morre. Ela nunca morre. Sempre fica lá, adormecida e vez ou outra resolve voltar junto com sonhos tentando consertar laços que foram desfeitos há muito tempo pela nossa falta de atenção.

Sobre amores infinitos

ayaya

 

Ela não conseguia dormir e por isso resolveu abrir a janela do quarto. Ou talvez o tenha feito porque não conseguia respirar direito. Olhou para o homem que descansava na cama e só por aquele momento prometeu a si mesma que não ia forçar nenhum pensamento para que acreditasse que o amava.

Com passos lentos e leves saiu para a varanda e tornou a fechar a janela. E junto com a janela fechou os olhos deixando dentro daquele quarto tudo o que tinha de real na sua vida. Sentou-se no chão gelado e pode enfim olhar para o céu.

Tinha dado a ela mesma a desculpa de que naquele dia ela poderia pensar em todas aquelas coisas que já tinha esquecido. Ainda que ela soubesse que aqueles pensamentos não a visitavam apenas uma vez por ano. O céu não tinha estrelas e talvez ele soubesse disso mas não se importasse.Esse tipo de coisa mística não fazia sentido para alguém que vivia dependendo de seu metodismo exagerado.

Outro dia tinha feito dois anos de namoro com uma moça bonita e que podia lhe dar tudo que um dia ela não pode. E ela comemorava naquele momento mais um de muitos anos que viriam, anos de distância. E pensava se todas as noites ele recebia as bençãos que ela pedia para ele antes de dormir. E se ele se lembrava de cada ponto de arrepio da pele dela assim como ela jamais tinha esquecido. E se ele conseguia sentir o perfume que ela deixava nas fronhas cheias de arrependimento quando ia embora. E se todos os outros gostos que ele tinha sentido depois dela o fizeram esquecer daquilo que eles nunca puderam viver por completo.

Assim, antes da primeira lágrima teimosa cair ela respirou fundo e levantou. E abriu a janela sem o mesmo cuidado de antes. E deitou-se ao lado de alguém que ela esperava que não acordasse naquele momento. E fechou os olhos. Mas antes que pudesse dormir em algum lugar pode ouvir: “eu me lembro”. E finalmente adormeceu.

Eu sempre tive a ridícula mania de culpar as pessoas por não sentirem o que eu sinto na mesma intensidade. Mas, bem mais do que culpar as pessoas, eu sempre tive a mania de culpar a mim mesma por não fazer com que as  pessoas sentissem exatamente o que eu esperava.

De um tempo pra cá eu comecei a perceber que não é legal esperar sempre o melhor de todo mundo, porque nem todo mundo dá seu melhor o tempo todo. E porque talvez o melhor para uma pessoa, não seja o que é o melhor para mim.

E quando as pessoas simplesmente não correspondem as minhas expectativas eu, que sou o cúmulo de ser efusiva, me fecho. Porque eu cansei de pedir conselhos, cansei das pessoas me acharem estranha, de eu me sentir estranha. Acho que não tem coisa pior do que se transformar em algo que você não é.

Não sei da onde veio esse meu medo absurdo de ser julgada pelos outros. Mas sei que isso chegou a um ponto que nem eu mesma posso saber dos meus próprios segredos. Porque já é motivo para eu descer um monte de julgamentos pra cima de mim.

E vou juntando um por um dentro de mim até que sinto a necessidade de cuspir tudo de uma vez em algum lugar. Eu sei que tem um milhão de palavras nas pontas dos meus dedos prontas para sair e eu não escrevo, porque tudo que eu escrevo imediatamente se torna real.

É como se eu materializasse um sentimento que antes era só um monte de partícula vagando no meu coração. É como se eu traduzisse tudo para a minha cabeça e ela começasse a trabalhar desesperadamente para resolver todos os problemas que antes de serem escritos nem eram problemas de fato!

Sempre quis abraçar um elefante porque eles são grandes e fortes e na maioria das vezes eu só preciso de força e parar de fingir para mim mesma que está tudo bem.