forget the ghosts

A porta da sala bateu bruscamente e uma sombra formou-se a seu lado. O olhar desligou-se aos poucos do céu derrubando-se sobre a pessoa que mantinha uma expressão de desprezo. Nada foi dito.O homem então voltou-se para a frente e adentrou a caminhonete com sua grosseria característica.

O dia seguinte amanheceu ensolarado como todos os outros naquela fazenda. Cecília cujos olhos abriam-se assustados todas as manhãs por ter a ligeira impressão de ouvir vozes já estava sentada na janela esperando que chamassem-na para o café. A fazenda de seu avô não era o lugar onde garotas normais de dezoito anos costumavam passar as férias, mas era onde ela podia sentar e escrever sem que ninguém a incomodasse.

A porta do guarda-roupa abriu-se sozinha e o copo de água que levara para o quarto tombou-se sobre o criado-mudo. Se a princípio aqueles acontecimentos a assustavam, hoje ela estava perigosamente irritada para contestar aquilo.

Contra sua vontade, subiu no velho carro de seu avô para levar alguns embolados de feno ao vizinho. Ela costumava negar-se ir até lá para não ter de encontrar aquele homem extremamente rude, mas ultimamente tinha percebido que quando não o via os acontecimentos que pela manhã pareciam inofensivos repetiam-se pela noite, abrindo janelas, ligando torneiras, sussurrando palavras a seus ouvidos.

-Seu Feno.

Balbuciou sem empolgação quando desceu do carro avistando Bernardo a sua espera. Ele era cerca de onze anos mais velho do que ela, o que lhe conferia vinte e nove anos e uma falsa superioridade que a irritava completamente.

Cecília estalou os dedos odiosa de si. Estava apaixonada por ele.

Indiferente, Bernardo pegou com facilidade todos pela mão e jogou-os ao lado fazendo Cecília suspirar internamente ao admirar sua força. Pagou a garota como se pagasse a um animal e quando ela pensou que fosse se virar e entrar em casa como sempre fazia, aproximou-se e a tomou em seus braços beijando-a com uma doce insistência.

A expressão ao olhá-la após aquele contato tornava-se dolorosa enquanto ele alisava seus cabelos e Cecília retornava ao planeta.

– Você se parece tanto com ela! Quieta, insolente, maldita e o pior, VIVA!

Um arrepio correu pela espinha da garota, as vozes que ouvia dentro de seu quarto diziam exatamente “Você esta viva. Por enquanto está viva”.

– Há quinze anos. Minha namorada morreu na varanda de seu avô enquanto escrevia, graças a uma falha em seu coração. Eu nunca mais senti algo parecido por alguém até você aparecer. E ela reaparecer. Todas as noites, derrubando louças e batendo portas quando me recuso a te ver. Sussurrando que precisamos…

– Que precisamos nos amar. Eu ouço o mesmo.

Bernardo tomou a mão fria de Cecília ao avistar um vulto caminhando pelo pasto tornando-se claro até sumir. Cecília então abraçou-o com carinho, sabendo do que se tratava.

– Parece que ela nos uniu.

Sussurrou Bernardo.

– E precisou um fantasma para você fazer alguma coisa seu incompetente!

Os dois riram e Bernardo enfim segurou seus cabelos antes de beijá-la novamente.

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