Destruidor de bonecas inocentes

E foi assim o tempo todo. Ele era mais novo. Um mês mais novo, talvez um pouco mais, mas era mais novo. Esteve na minha sala de aula todos os anos da minha vida, mas mesmo assim era mais novo. Fazia aniversário pouco tempo depois de mim, mas mesmo assim era depois.

Era admirável nossa infância. Juntos, eu sempre a mais velha, ou seja, a que tinha a autonomia para tudo. E ele tinha que me respeitar. Ou pelo menos era o que eu pensava. Até os onze anos eu era mais alta. Mas não tão alta a ponto de não precisar dele. Existia uma entrada pelos fundos daquela casa por onde eu sempre entrava quando queria ajuda. Por onde eu entrei quando meu irmão mais velho foi para a faculdade e eu me senti sozinha e chorei por duas horas seguidas enquanto ele me olhava do sofá pensando se deveria ou não me consolar.

Aos quinze já não era assim. Ele tinha quase o dobro de meu tamanho e não era só eu que vinha chorar em seu ombro. Ele riu da minha cara quando eu disse que minha mãe falava que nosso primeiro beijo seria juntos. Ele já tinha dado o primeiro dele, eu não. Era conservadora, medrosa e estranha.

Eu sentia que ele não queria ser visto comigo na escola. Isso foi meio duro para mim no começo. Então, ele teve de se mudar. Eu estava lá, na calçada da minha casa que era de frente para a dele olhando para o caminhão de mudança. Anestesiada. Via colocarem o sofá, as cadeiras, as mesas, a cama dele… Algumas caixas com brinquedos, brinquedos que brincamos juntos, que quebramos juntos, que brigamos juntos.

Então ele finalmente saiu da casa e me olhou alí sentada. Respirou fundo e meio em minha direção. Eu estava fria. Ele não deveria estar triste, a não ser pelas garotas do colégio que não estariam mais com ele o tempo todo. As bonitas e arrumadas, descoladas e quentes, garotas do colégio. E eu era só uma amiga de infância, que havia dado o primeiro beijo com quinze anos e com o nerd da sala dele. Pouco importa, quinze, dezessete, dezoito. Eu era a mesma para ele.

– Você sabe que eu tenho que ir não é?

Eu levantei o olhar tentando me fixar em qualquer ponto e não chorar.

– Eu sei.

Ele sentou-se do meu lado com algo nas mãos.

– Achei isso debaixo da minha cama. Acho que é aquela boneca sua que desapareceu. Eu peguei para esconder de você, mas quebrei a perna dela sem querer. Aí fiquei com medo de devolver e você me bater.

Idiota. Eu tinha ficado doente com o desaparecimento daquela boneca. E sim, eu teria espancado ele se  tivesse me devolvido.

– Já disse que te odeio?

Ele riu. Então eu ri também.

– Desculpa por ter me afastado. Eu senti sua falta. Eu vou sentir a sua falta.

Os sorrisos desapareceram. Odiávamos despedidas.

– Eu também.

Então ele me beijou. Insolente, bobão, medroso, lindo, meu. Ele me beijou como eu sempre esperei que ele fizesse e ele resolveu fazer isso segundos antes de nunca mais nos vermos. Um suspiro meu e ele sorriu triste entrando em seu carro que seguia o carro de seus pais e o caminhão. Eu tive vontade de dizer ‘me leve junto, por favor’. Mas foi só uma vontade.

Dezoito anos. Não foi minha melhor época. Mas agora com vinte e cinco vejo que tudo pode piorar. Cá estou eu, sentada em um banco de igreja de um casamento que para mim não faz sentido algum, e o olhando. Longe, intocável, lindo e meu… meu, casando-se com outra.

Alguma objeção? Eu tenho, ele passou mais tempo da vida dele comigo do que com sua própria mãe. Ele roubou uma boneca minha e a devolveu dez anos depois com a perna quebrada. Ele me ignorou com quinze, dezesseis e dezessete anos para me beijar com dezoito minutos antes de ir embora. E depois disso me mandou flores, em todos meus aniversários, com cartões sem nada escrito, mas eram flores… A minha objeção, é que ele é meu. Só meu.

Eu não disse nada. Apenas olhei para ele. Meus olhos diziam ” porque você é tão estúpido?”. E os dele diziam ” porque você não diz nada?”. Casou-se.

Desisti. Mudei de vida, de rumo, de amores. Passei a sair com homens mais velhos em quem eu podia confiar. Homens que não demoravam a entender um sentimento, mas que igual a mim, não queriam envolver-se em uma relação. Homens que me davam prazer, só isso.

Então encontrei uma garotinha na rua chorando com uma boneca na mão. Lembrei de mim. Lembrei que talvez ela tivesse um babaca na vida dela também e resolvi ajudar.

– Você está bem?

Ela me olhou desconfiada e parou de chorar por um segundo voltando logo depois.

– EU ESTOU PERDIDA!

– Eu também. Mas acho que posso te ajudar. Com quem você estava?

– Comigo.

Com um homem. Com o homem. Com o meu homem. Ele sorriu, eu também. Aquela situação era no mínimo ridícula. Não era sua filha, era sua sobrinha. Ele não tinha aliança nos dedos, não tinha sinais de infância em seu rosto. Parecia até uma pessoa madura se você fechasse um pouco os olhos quando o olhasse. A garota foi entregue a mãe. E eu fui entregue a ele. Talvez um pouco tarde. Um pouco desesperada. Um pouco idiota. Mas dele, completamente, dele.

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