Seis meses

Ela teve de fechar os olhos por um breve momento para entender aquela situação. De fato ela não entendeu, mas fechar os olhos naquele momento parecia o correto. Havia cerca de 29 mil homens em sua cidade e 83.576.015 homens em seu país por quem ela poderia se apaixonar. Mas ela preferiu escolher um que estava há mais de dez horas de avião de sua casa.

A internet não tinha sido uma boa. Se ela fosse uma pessoa que saísse para trabalhar, voltasse para casa, fosse para faculdade e dormisse, sem a interferência digital em sua vida seria mais fácil. Ela procurou por aquilo.

Ela foi quem foi atras dele na primeira oportunidade de contato. Como se tivesse acabado de saber quem ele era, como se não tivesse o procurado por anos antes de encontrar. E ele acreditou. Como são burros os homens!

Primeiro ela mandou uma mensagem qualquer, para simular um engano. Ele caiu nessa e começaram a conversar. Primeiro por mensagens, depois adicionaram-se em um sistema de conversação simultanea. Foi aí que começou a complicar. Certa madrugada eles conversavam sobre qualquer assunto e ele pediu para que ela ligasse a webcam para que ele pudesse vê-la. Em dez segundos ela entrou no banheiro, trocou de roupa, atolou sua cara de maquiagem e arrumou o cabelo. Então ligaram. Ele estava lá, de pijamas, com cara de sono, o cabelo meio amassado e lindo.

Vício. Assim que ela podia descrevê-lo. Preferia agora ficar em casa do que sair aos fim de semana com suas amigas estragar seu fígado. Preferia ignorar os homens de carne e osso que vinham até ela para apegar-se ao virtual. Preferia amar alguém distante, do que se deixar sentir qualquer coisa por alguém mais próximo.

Eram amigos, apenas isso. Nada de conversas melosas, corações, sentimentos mais profundos. Ele vivia a vida dele, e ela não vivia a dela por ele. Trocaram telefones por um sistema a rádio. Então o dela apitou pela madrugada. Ela tateou a cama encontrando-o e foi acordada pela voz dele.

Como se não fosse o suficiente tomar sua vida no computador, agora ele a acordava. Estava sentindo-se mal.

” Hei, será que você pode me ouvir um pouquinho?”

Ele não precisaria suplicar. Ela era toda ouvidos.

O trabalho, a família, a ex-namorada, as mulheres com que saia. Ela ouvia de tudo. E falava de quase tudo, menos do que sentia. Foram horas, dias, meses, quase um ano conversando todos os dias, dividindo alegrias, tristezas, agonias. Usando toda a tecnologia que o mundo disponibilizava. Então, um dia o telefone não tocou.

Ele estava no hospital. Tinha sofrido um acidente. Infelizmente, ela não soube por ele e sim por um site na internet. Respirou fundo antes de começar a chorar. Ele não a atendia e ela não sabia como ele estava. Ela não tinha tido a chance nem de dizer que o amava mas que ficaria quietinha para que ele não se lembrasse disso com frequencia e não quisesse se afastar. Então ele atendeu. Estava bem. Ele inclusive sorriu quando ouviu a voz dela, ainda que ela não estivesse lá para ver.

“Você está bem?”

Ele estava. Então ele disse que ficara feliz dela ter ligado, que sentia a falta dela, que queria que ela estivesse com ele.

“Eu estou apaixonada”

Ela disse rápido, antes dele terminar de falar, com medo, enquanto algumas lágrimas teimosas caiam por sua face por saber que ele estava bem, mandando embora todos os pensamentos ruins que ela tinha tido. Ele não respondeu o mesmo. As palavras foram certeiras.

“Eu preciso te ver, chego em seu país o mês que vem”

E lá estava ela, esperando as pessoas descerem do avião, anisosa, agoniada, nervosa, com medo. E ele saiu. Pela primeira vez na vida ela sentiu como se estivesse tomando ácido sulfúrico e suas pernas tremiam absurdamente. Queria correr, abraçá-lo, mas não sabia se podia. Então ficou estática, parada. Ele sorriu para ela antes de abraçá-la e pegá-la no colo. Afundou a cabeça em seus cabelos segurando sua cabeça com carinho e ela respirou, como nunca tinha respirado na vida. Era um alívio tê-lo consigo.

Saíram para o hotel onde ele ficaria. Ele no hotel, ela em casa. Não eram nada, além de amigos distantes. Saíram para jantar algumas vezes e na terceira noite antes dela descer do taxi ele a beijou. Ela não sabia dizer se sobreviveria depois daquilo. Se seu coração um dia pararia de doer como se estivesse sendo metralhado. Não! Não queria soltá-lo, não queria entrar em casa e dormir. Vê-lo apenas no dia seguinte quando ele tinha data para ir embora não era uma opção.

“Porque você? Porque não podia ser alguém do meu país, da minha cidade, do meu ciclo de amigos?”

Ela ficou feliz por ele compartilhar dessa incerteza. Aquele dia não precisou sonhar com ele, ele estava com ela. Aquele e nos vinte próximos. Viviam como se nada tivesse errado, como se ele estivesse lá para sempre.

Então, na noite anterior ao regresso ele a olhou profundamente e ela ficou com medo. Ele ia dizer que terminava alí.

” Eu não posso alimentar seu sofrimento dessa maneira. Você aqui e eu lá. Você pode encontrar outra pessoa por aqui. Ser feliz por aqui.”

Ela não podia. E ele não entendia porque não. Mas ele também não podia. Era simples, se fosse preciso ele viveria de analgésicos, mas ela tinha que ser feliz, e não conseguiria isso com ele. Era não era persuasível.

” Me deixe te esperar. Nem que eu precise esperar a vida toda.”

Ele deixou. E encontravam-se no aeroporto novamente. Dessa vez caminhavam abraçados, sem pensar em se soltarem.

” São só seis meses. Você aguenta? Depois estaremos juntos por mais um mês.”

” E depois mais seis meses, ou talvez um ano. Eu não aguento, eu suporto.”

Ele a beijou e a porta do salão de embarque fechou-se. Só mais seis meses.

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