Coração de papel

O palco, vazio, liso, solitário. Ela não estava muito preocupada com o que poderiam pensar dela na verdade, apesar de ter a consciência de que era um teste. O papel seria seu se tivesse de ser seu. Mas sem dúvida, aquele dinheiro faria falta no final do mês.

Respirou olhando em volta para ver se encontrava algum dos jurados. Ninguém. Permaneceu então sentada até a porta abrir-se. Um rapaz e duas moças entraram por ela. Estavam nervosos evidentemente. Sem dizer uma palavra sentaram-se próximos a ela.

Mais meia hora. Ninguém apareceu. Então a porta abriu-se de novo e outro rapaz adentrou a sala. Ele sorria simpático para todos. Com um cortez, “bom dia” sentou-se próximo a eles e encostou a cabeça no banco. Devia ter cerca de vinte e quatro anos, era moreno, de cabelo, de olhos, menos de pele. E era calmo. Ela agradeceu a Deus por não disputar o papel com ele, ele parecia muito tranquilo e feliz aquele dia. E sem dúvida era o mais bonito dalí.

Mas duas horas. Ninguém entrava. As pessoas começaram a ir embora. Estavam lá a muito tempo. Saíram as mulheres. O rapaz nervoso e quando ela ia levantar-se o rapaz alegre a olhou. Ela prendeu a respiração ao ouvir sua voz.

“Espere mais um pouco querida. Não desista agora.”

Não sabia o que a prendeu. Mas entre a voz, o olhar e o sorriso, ficou com o sorriso e começaram a conversar. Então, palmas foram ouvidas saindo da cochia. Uma mulher de baixa estatura e peso elevado sorria com simpatía.

” Para entrar em nossa companhia é preciso mais que saber atuar. Ter talento envolve uma série de coisas, inclusive a paciência. Parabéns, voltem amanhã e os atenderemos no horário. Bem vindos.”

O rapaz apenas sorriu em agradecimento e ela permanecia estática. Sussurrou um “obrigado” antes de levantarem e ele apenas sorriu novamente.

No dia seguinte estavam os dois, em cima do palco, discutindo sobre os personagens. Só ela sabia quantas cenas de paixão já tinha feito em sua vida. Dentro e fora dos palcos. Sua vida toda era um grande teatro, para não dizer circo. Ele a fazia rir. E ele só precisava sorrir para ela. Essa foi uma constatação, não muito tardia. Em casa, quando se via solitária, lembrava dele e então sorria. Achou maravilhoso ter encontrado a tal “química”.

Então, antes do ensaio da terceira semana, onde começariam enfim as cenas de amor ele sorriu a olhando de um jeito diferente. Ela já não sabia se controlar. Sua voz, seu olhar, seu sorriso de novo. Irritáva-se seu coração que as vezes batia tão forte e ela podia ouvir os batimentos. Ele acariciou seu cabelo e a beijou. Desnorteio. Foi assim que ela se definia depois disso.

Duas, três, quatro, dois meses. Assim foi a preparação do espetáculo. Amantes da arte, de si mesmos, do amor. Ela sorriu quando pensou em amor a primeira vista, mas não sabia definir aquilo. Cada segundo que passava com ele era como entrar no personagem. Estava nele, sabia que sim.

Soube, então, pela dona da companhia, que todas os casais que tinham feito aqueles papeis tinham se apaixonado. Respirou aliviada, não era a única perdida.

Dois anos de apresentação, seguidos, sem pausa. Dois anos de relacionamento, intenso, sem descanso. Então, um dia ele manifestou a vontade de inscrever-se em outra peça. Decidiram continuar se correspondendo.

Quinze dias, e ele tinha se envolvido com sua nova parceira. Era um homem de papéis, de atuação, sem coração.

Ela lamentou-se, chorou, perdeu o sentido de sua vida e superou. Ou talvez tenha fingido isso para si. Estava sentada nas cadeiras de outro teatro esperando um teste, dessa vez o sorridente era loiro de olhos azuis. Ela riu um tanto amargurada, era bom variar.

Era um papel, assim como o coração dele. Sem valor, sem resistência, maleável…

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