Se me pedissem para relatar

minha vida desde o meio de maio até agora eu preferiria ficar quieta. Porque no prazo de três meses eu juro que não passei um dia sem chorar. E eu não estou chorando porque briguei com um namorado, porque fui traída, porque estou grávida.

Estou chorando porque minha mãe está com câncer. E se quer saber, agora o  que me faz chorar nem é o próprio câncer, porque depois de um tempo você percebe que apesar de parecer a doença não é uma sentença de morte.

Saber que a pessoa que você mais ama no mundo tem câncer é criar um desespero dentro de você que tem que ser controlado para não escapar de jeito nenhum, é ter que cultivar a sua fé sem olhar para casos que deram errado e acreditar que vai dar certo é conviver com o pavor de perder.

Eu tenho 19 anos e não sei cuidar nem da minha vida direito e agora eu preciso cuidar da minha mãe que passa muito mal depois de cada quimioterapia,  eu preciso fazê-la se alimentar, preciso tentar animá-la,  preciso deixá-la calma e quando eu falho em alguma das coisas eu me odeio com todas as minhas forças eu sou incapaz de perdoar a mim  mesma.

Morar numa cidade do interior de São Paulo e minha mãe se tratar em São Paulo é quase nosso maior  problema. Ela precisa vir de 21 em 21 dias para cá fazer químio, além das injeções que ela precisa tomar para aumento de imunidade e se nós continuarmos morando lá todo esse tempo que ela está aqui eu vou ficar longe dela. Em contra partida eu não quero que ela se transfira para um hospital em Campinas,  ela começou aqui o tratamento e é aqui que eu quero que ela fique, eu quero minha mãe boa,  só isso.

Desde que tudo começou meus pais dizem o tempo todo “vamos ficar em Jaguariúna” “vamos mudar pra São Paulo” “vamos ficar em Jaguariúna” “vamos mudar para São Paulo” e a minha cabeça vai dando um nó cada vez mais cego, eu e SÓ EU,  estou procurando desesperadamente um apto que caiba no  nosso orçamento, mas  para  que isso funcione meu irmão também precisa de uma escola  aqui, e uma escola particular para a quinta série em São Paulo tem preço de faculdade.

Eu nunca reclamei do dinheiro dos meus pais, sempre tive tudo que precisei e o que quis além disso fui trabalhando e conseguindo sozinha, mas  nesse momento eu não tenho  simplesmente dois  mil reais para tirar  do meu bolso e entregar para meus pais dizendo “aqui,  paguem  a escola do marquinhos  e  deixem o resto comigo”.

Eu fiz uma  solicitação de intercâmbio para a USP,  porque faço letras na UNICAMP e até agora não comecei NEM  UMA DAS DUAS. Meu irmão perdeu vários dias de aula também e eu não aguento mais essa insegurança.

Minha  mãe não pode ficar nervosa, então ela finge que nada está acontecendo. Meu pai está quase surtando com  a pressão e também não consegue achar uma  saída.  Uma hora manda todos  para Jaguariúna, outra hora  traz todos para São Paulo.

E eu tenho que me contentar com mensagens bonitinhas em redes sociais, tenho que me contentar com palpites que família e amigos estão dando o tempo todo na nossa vida e raramente servem para alguma coisa. Eu não tenho UMA pessoa que quando me veja desesperada em casa só me abrace e peça para me acalmar porque eu sou saudável, eu não sou a  chefe da família eu não tenho o direito de estar desesperada.

Se eu fosse mais responsável eu já teria carta de motorista para ajudar meus pais, se eu fosse mais responsável eu saberia cuidar da minha mãe sem  vacilar, se eu fosse mais responsável eu não ficava divulgando nossa vida assim na  internet pra todo mundo ver.

Eu sei que um apartamento não vai cair do céu, sei que meu irmão não vai ganhar uma bolsa de estudos pelos lindos cabelos castanhos dele, sei que meu desespero não vai curar minha mãe de hoje para amanhã.

Eu sei de um monte de coisa, mas não sei lidar com isso.

Eu tenho um monte de coisa, mas não tenho a calma que deveria ter.

Eu quero um monte de coisa, mas o que eu queria mesmo era acordar desse pesadelo e que minha mãe tivesse boa de novo.