O que eu quero da vida.

Eu quero um dia encontrar com olhos, que não os meus através de um espelho, mas que reflitam exatamente o que eu quero para mim.

Quero mais do que isso. Quero poder além de me reconhecer nesses olhos, ter exata certeza do que está passando naquela mente. Eu quero bem mais do que entrar na mente, quero estar na mente assim como uma árvore simplesmente está no meio da calçada atrapalhando todas as pessoas que passam com seus imponentes guardas-chuva num dia chuvoso de março.

Eu quero passar as mãos com cuidado em uma cabeça qualquer que eu saberei exatamente quantos fios tem e quero encontrar fios brancos e algumas falhas de cabelo e quando tirar as mãos de lá ouvir “você é a culpada”.

Eu quero que minhas dúvidas sobre o mundo sejam resolvidas por mim mesma, mas quero que o que me faltar resolução seja simplesmente esquecido com um grande sorriso de dentes brancos e milimetricamente entortados para não se igualar a nenhum outro.

Eu quero que sorrisos sejam sinceros e invasivos. Que apareçam em momentos em que eu não espero e que aparentemente não deseje. Quero ser despertada de um momento de fúria com o som de uma gargalhada rouca e logo depois ser embalada num sono profundo através do cheiro de quem está por perto mesmo quando pedimos para estar longe.

Eu quero ser incomodada com uma barba chata e insistente que raspa no meu rosto todas as manhãs logo após o despertador tocar e que então se enrosca nos meus fios de cabelo implorando para que possamos ficar ali para sempre.

Eu quero estar ali para sempre mesmo que nenhum de nós esteja. Quero deixar em cada canto do mundo uma evidência de que estivemos ali da forma que qualquer pessoa poderia ter estado, mas mesmo assim com a singularidade de que juntos somos um tipo de coisa que não existe em lugar nenhum.

Eu quero lágrimas sinceras que caem dos olhos de quem se machuca sozinho ou é machucado por alguém e que escorrem por bochechas, pescoços, braços, mãos, dedos e unhas até pingarem em um chão de lajotas azuis e fazerem um barulho quase imperceptível de súplica para que elas não sejam eternas. E então que as costas das mãos grandes, desajeitadas e grosseiras sequem as que ainda não terminaram de cair e não deixe com que elas simplesmente sumam.

Eu quero bocas que se abrem e vomitam palavras de admiração sem se importarem se um dia isso acaba. Eu quero vocabulários onde não existam a palavra fim e que início tenha uma página especial no dicionário que explique porque ele sempre está presente até quando vai embora.

Eu quero uma caixa preta com um grande laço amarelo chamada: perdão. E quero que ela fique fixa no meio de um corredor de um metro de largura para que possamos tropeçar nele o tempo todo.

Quero mais do que uma caixa no meio do caminho, quero grandes sapatos de ferro chamados de orgulho e quero que possamos entender que para continuar caminhando precisamos nos livrar deles. Mas quem anda sem orgulho fica descalço, quem fica descalço pisa em cacos de vidro e se machuca. E então tropeça e abre a caixa do perdão e cura as feridas uma por uma.

Eu quero que todos os corações entendam que não podem fazer o trabalho sozinho e que ninguém mais faça laços com só um lado da fita. Quero que confiança seja mútua e que tudo que é seguro se solte.

Então eu quero fios de cabelos brancos se misturando em lençóis brancos e que ainda seja possível enxergar o amor através de olhos que se fecham para sempre.

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