E foi assim que eu me impus alguns limites

Num dia desses normais, onde parece que não está frio nem calor e as pessoas arrastam as vidas como se elas não fossem importantes que eu comecei a perceber algumas coisas que deveria interromper.

Foi assim, observando pessoas que repetiam constantemente os mesmos erros da forma mais inocente que existe no mundo, que eu fui me dando toques de quando seria a hora de parar.

Bem assim mesmo, numa de me preocupar mais com o que está acontecendo na vida dos outros do que na minha que eu fui anotando mentalmente cada erro que as pessoas cometiam. Eu fui filtrando da melhor maneira que pude o que eu considerava erro de acordo com uma única regra: só era erro se fazia mal.

E descobri tantas coisas que pareciam fazer bem, mas na verdade sugavam a vida das pessoas, que me assustei. Mais do que isso, eu me identifiquei várias vezes com muitos erros mascarados por aquilo que as pessoas costumam chamar de amor (mas não é).

Eu fui separando um por um os vilões de todas as vidas que eu conhecia até perceber que   sempre chegava o momento onde os vilões eram as próprias pessoas. Gente confusa, insegura e cega. Gente que simplesmente não soube parar na hora certa.

E se excedeu. Transbordou o coração no lugar errado e deixou vazar todas as coisas boas para pessoas que não fizeram uso delas. E então encheram o próprio coração daquilo que aparece quando a gente dá muito de nós e não recebe nada. A mágoa. Ou pior, ficaram vazias.

Então eu me impus alguns limites pra evitar de transbordar por aí. Decidi ficar na zona de conforto. No meio cheio ou meio vazio. Na sanidade. No respeito comigo mesma. E parei de me permitir ser invadida pelo tipo de coisa que não é, nem nunca foi amor.

Já ta chegando?

Em toda a minha vida eu nunca tive paciência. Quando tinha cinco anos eu decidi que não queria continuar na pré-escola. Não teria paciência para esperar mais um ano até chegar no ensino fundamental. E assim foi, fiz uma provinha e era a criança mais nova da primeira-série (e de todos os anos seguintes).

Nunca gostei de esperar em carros ou ônibus por longas viagens, sempre perguntava o tempo todo se “já estava chegando”. E com aviões não foi diferente. Ainda os acho lentos demais para minha paciência. 

Se fico doente prefiro as injeções, se estou com fome escolho fast food, odeio secar o cabelo porque demora muito tempo e prefiro ficar com as unhas sem fazer se precisar sentar mais do que trinta minutos na frente de uma manicure.

Se alguém normal perde o raciocínio em sessenta minutos, em trinta eu com certeza já perdi. Preciso de respostas imediatas e claras. Gosto que me expliquem tudo da forma mais simples. Nunca fui de encher linguiças nem em provas de escola. No vestibular raramente conseguia sair com o gabarito. Se o ônibus demora prefiro ir a pé. Se a fila do banco demora prefiro não pagar a conta. Se o cabeleireiro demora saio do salão com o dinheiro e compro uma roupa nova para não repararem na minha cabeça.

Sou assim com tudo, não seria diferente com meu coração. Se eu gostei, gostei e pronto. Tenho certeza que gostei, não vou mudar de idéia. Não tenho paciência para esperar o tempo dos outros. E não é por mal. Minha impaciência quando não respeitada começa a me fazer mal. Me deixa chata, depressiva, revoltada. Me deixa chorona, inconformada, mata minha auto estima. Eu preciso das coisas alí na hora. Pra mim se o amor espera ele apodrece. Quem não gosta com duas semanas, não vai gostar com dois meses ou dois anos. O coração de pessoas normais bate em média 70 vezes por minuto. O meu bate 120. Os médicos chamam de Prolapso da válvula mitral e eu chamo de pressa.

As pessoas dizem que não me entendem porque eu falo rápido demais, porque respiro rápido demais, porque sinto rápido demais, porque mudo de ideia rápido demais, porque vivo rápido demais.

E quem anda rápido demais cansa antes dos outros. Eu vivo cansando da vida. Mas descanso rapidinho e já saio por ai. Me apaixonando em dois dias, me decepcionando em duas horas, desabafando em dois minutos e me recuperando em dois segundos.

Então, vocês que sabem esperar, por favor esperem sentados a hora que eu vou voltar calmamente para pingar todos os i’s.

Porque no que depender da minha impaciência, minha vida vai continuar respingada assim.

 

Sobre como eu descobri que não era isso tudo

Eu não sei ao certo se era dia ou noite quando de repente, no meio de uma tempestade ou outra em copo d’água eu te encontrei diferente. No meio de uma situação qualquer onde eu (como sempre) tentava tirar da minha cabeça aquela quantidade enorme de pensamentos sobre você, eu simplesmente percebi que as vezes você, não é você.

Que o você que estava comigo quando estávamos sozinhos em qualquer situação era só e completamente diferente do você que o resto das pessoas conhecia. Algumas pessoas chamariam isso de transtorno de personalidade, mas pra mim é uma grande dose de insatisfação consigo mesmo. Ninguém precisa ser outra pessoa, se gosta do que é.

E quando descobri isso tudo eu reparei que não te odiava por ser dois. Eu simplesmente não gostava de pessoas que precisavam criar outra versão delas. Que suas fotos extremamente felizes e sua personalidade toda trabalhada na alegria que pessoas satisfeitas sentem de si mesmas, era igual umas dessas histórias que a gente conta para criança dormir. Serve para distrair, mas sabemos que é mentira. Descobrir que eu conhecia o verdadeiro você e logo depois perceber que você se sentia mais seguro quando estava dentro da personalidade forçada e trabalhada que as outras tantas garotas preferiam, fez com que eu percebesse que não era isso tudo.

Que na verdade, era nada. E que eu ia continuar procurando por pessoas reais, dessas que vivem no mundo real, são elas o tempo todo e não dão a mínima para o que parecem ser para os outros.

E quando quisesse um boneco feliz, eu iria até uma loja e comprararia, uma versão muito melhor e trabalhada do que aquela que você costumava tentar ser

Eu não sei ser pela metade

Nunca soube. Se acho alguma coisa engraçada eu dou risada e não sei rir baixo. Também não sei segurar riso porque pra mim quem segura riso morre engasgado. Riso é feito pra sair, ecoar, contagiar, incomodar. Se eu acho alguma coisa engraçada eu dou risada mesmo, até quando não pode. Não sei rir pela metade.

Sempre gostei de ser a melhor da sala. Mesmo quando não era eu gostaria de ser e trabalhava pra isso. Estar entre os melhores não era o suficiente, eu queria ser a melhor em alguma coisa. Mesmo que fosse a melhor em contar piadas, ou a melhor em ajudar as pessoas, ou a melhor em comer o lanche da cantina mais rápido. Eu queria ser a melhor em alguma coisa e quando eu conseguia, eu realmente era. Percebi que era mais fácil ter pequenos talentos, daqueles que todo mundo esquece. Fui a melhor em ser desastrada, a melhor escritora de webnovelas da cidade, a melhor puxa-saco dos diretores, a melhor stalker de artistas. Fui a melhor em arrumar talentos que ninguém se importava. Não sei ser boa pela metade.

Quando eu prometo alguma coisa eu cumpro. Por isso nunca prometi coisas impossíveis como escalar uma montanha de costas. Mas já prometi que comeria pimenta pura, que rolaria colina abaixo, que passaria no vestibular, que cuidaria de alguém, que faria alguém dar risada, que passaria em testes de teatro, que conheceria meus ídolos e cumpri. Não sei prometer pela metade.

Eu já gostei de muitos alguéns. Gostei de verdade, com direito a cartas, declarações e lágrimas. Com direito a abraços, beijos e  mordidas. Com direito a juras de dedinho, cafunés, cócegas. Com direito a virar ouvinte de rock pesado e de sertanejo. Já gostei com direito de abrir mão e de sair fora quando vi que não ia virar. Com direito a ciúmes e revolta. Com direito a saudade que não passa e uma série de arrependimentos. Não sei gostar pela metade.

Já sofri. Daqueles sofrimentos eternos de chorar no quarto escuro e não sair por dois dias. Daqueles sofrimentos escondidos quando minha mãe estava doente e eu precisava ser forte. Daqueles sofrimentos gritados pra jogar na cara do mundo o tamanho da minha raiva. Não sofri quieta. Não sofri como uma lady. Não sei sofrer pela metade.

Sonho em abraçar elefantes. Em conhecer um grande amor. Em morar em Nova York. Em ter uma casa na árvore. Em ter meninas gêmeas. Em conquistar alguém. Em voar. Em comer sem engordar. Não sei sonhar pela metade.

Isso me torna desesperada, compulsiva, maluca, apelativa, apegada, possessiva. E sou tudo isso e mais tudo que existe no mundo. Um pouco de cada. Não sei ser pela metade.

Eu escrevo quando quero falar com você

tumblr_ltcon6VXOq1qkkk01o1_1280_large_large

Existem algumas coisas que eu faço quando eu quero evitar fazer outras. Por exemplo, eu escrevo quando quero falar com você. Porque sei que escrevendo eu vou suprir essa minha vontade de falar que nasceu junto comigo e eu não consigo nunca me livrar. E porque não importa o que eu diga, não vai ter nenhum tipo de consequência maldita que faça eu me arrepender. Também é porque eu sei que mesmo que eu dissesse tudo o que eu tenho que dizer você não entenderia (ou simplesmente fingiria que não entende) já que você não se importa com metade das coisas que tem importância para mim.

Eu escrevo quando quero falar com você porque sei que o papel e a caneta não vão me julgar, não vão jogar na minha cara tudo o que eu fiz (ou você acha que fiz) de errado e também não vão mudar de assunto, já que quando eu escrevo eu decido qual vai ser o assunto em questão.

Eu escrevo quando quero falar com você porque o papel não machuca, porque a caneta não alfineta e porque eu sempre preferi ser ignorada por seres inanimados. Escrevo porque é aqui que eu acho um pouco de normalidade para essa minha vida anormal, com pessoas anormais e sentimentos anormais. Escrevo porque escrevendo eu não machuco ninguém, não ofendo ninguém e posso apagar um milhão de vezes o que eu escrevi e nem você nem ninguém vai poder jogar na minha cara onde eu me contradisse. Porque eu sei que me contradigo inúmeras vezes quando se trata em vontades e não vontades de falar com você, já que pessoas normais não tem vontade de falar com ninguém quando não tem assunto. E pessoas normais preferem falar com gente que as fazem sentir bem e não mal. E pessoas normais quando querem falar com alguém, simplesmente falam e não escrevem.

Mas eu nunca fui normal.Então quando eu tenho vontade de falar com você eu pego um papel e uma caneta, sento na cadeira e escrevo até a vontade passar.

As melhores pessoas estão exatamente onde deveriam estar

Imagem

Eu estava na rodoviária esperando o ônibus de volta para a minha cidade, numa dessas idas costumeiras a São Paulo, quando um garoto que colocava adoçante no café do avô me perguntou se estava indo ou vindo.

Achei engraçadinha a pergunta e sorri enquanto respondia “eu estou sempre indo e vindo”. Ele sorriu e comentou algo sobre a demora da atendente do café e eu concordei com a cabeça pensando que ele era realmente um garoto simpático e que era suficientemente bonito também. Meu café chegou ao mesmo tempo que o ônibus então eu peguei minha mochila e quase tímida disse “meu ônibus chegou, tchau”. Ele respondeu e eu pensei a viagem toda que talvez aquele menino fosse uma excelente pessoa para se conviver. Poderia se tornar um amigo daqueles que são até chatos de tão protetores ou até mesmo um namorado. Pode parecer estranho mas eu acho absurdamente atraente pessoas que adoçam o café dos avós.

Então, alguns minutos antes de cair do sono eu pensei que talvez se eu ainda morasse em São Paulo, como gostaria, conheceria um milhão e meio de pessoas simpáticas, atraentes e inteligentes e me perguntei porque as melhores pessoas moram tão longe.

Logo depois me corrigi. Nunca gostei de gente que reclama o tempo todo que as melhores pessoas do mundo moram longe de você. Porque isso não é verdade. As melhores pessoas estão exatamente onde deveriam estar: em todos os lugares.

Não é porque eu não gosto completamente da cidade onde vivo e preferiria com toda a certeza estar morando em outro lugar, que as pessoas que vivem perto de mim não são as melhores.

Toda essa evolução tecnológica, na minha humilde opinião de usuária de redes sociais desde o ranking dos mais populares do orkut, faz com que as pessoas regridam em questão de relacionamentos sociáveis.

Um celular hoje em dia permite que você esteja em vários lugares ao mesmo tempo, com várias pessoas ao mesmo tempo. E essa facilidade de escolher com quem você quer estar, te afasta de pessoas reais se você não souber dosar uma coisa chamada “presença”.

Você pode conhecer alguém muito especial em alguma viagem por aí, assim como o menino que adoça cafés. Mas se focar muito nele, você não vai enxergar outros meninos que adoçam cafés e estão do seu lado.

A grama do vizinho é sempre mais verde. Os passeios dos amigos de longe, parecem sempre mais atraentes. Mas e quem está com você o tempo todo? E as pessoas que se juntam com você para não fazer nada?

Não são as melhores pessoas que moram longe. E sim você que se distancia das melhores pessoas.

Existe espaço para o amor em qualquer lugar. Existe lugar para o amor em qualquer pessoa que vive em qualquer espaço. Existe amor em qualquer tipo de relacionamento social.

Dar valor a quem está perto de você, não faz dessas pessoas as melhores pessoas do mundo. Mas com certeza, faz de você, uma pessoa melhor.

Sobre amizades

Não é de hoje que meus amigos me chamam de “garota-amizade”. Não é de fato um apelido que me dá orgulho, mas também não me incomoda. Quer dizer, eu ganhei esse apelido por gostar de me dar bem com a maioria das pessoas, por gostar de ajudar sempre todo mundo que eu consigo, por incluir quem se sente excluído e coisas do tipo. Acho que apelidos se tornam ruins quando ele remete a uma coisa ruim que você faça. Mas nesse caso, é um apelido válido.

Durante minha vida tive muitos amigos. Alguns se foram simplesmente por conta da distância, mudanças de cidade/país. E outros mesmo distantes ficaram.

Vejo sempre pessoas se vangloriando de ter “poucos e bons” amigos. Eu quero sim que meus amigos sejam bons, mas gostaria de ter um milhão deles. Uma característica minha é justamente essa: gostar de estar cercada por pessoas.

Durante toda minha vida eu nunca havia presenciado “um fim abrupto de amizade”. Brigo bastante com alguns amigos (os mais próximos na maioria das vezes) e sempre nos acertamos. Algumas vezes fico irritada ou chateada, mas passa.

Aconteceu ano passado, bem do comecinho do ano, quando perdi uma amiga. Foi estranho e doloroso porque era uma pessoa que eu considerava de um jeito que chegava a doer meu coração e de repente ela decidiu que deveria ser assim e cortou todos os contatos comigo.

Não vou negar que sinto falta dela até hoje. Mas sempre tento me lembrar que os bons amigos ficam.

Valorizo tanto minhas amizades que qualquer um próximo a mim sabe que eu não SUPORTO que falem mal de outros amigos que tenho. Acho uma questão mínima de respeito.

Um amigo não zomba de você caso isso te faça mal. Não fala mal de você para outros amigos enquanto na sua frente finge que está tudo bem. Não tripudia em cima de suas convicções. Não contesta todas as suas opiniões. Não se acha superior a você.  Não te usa como step. Não te provoca por maldade. Não te alfineta por diversão. Não te julga. Não tenta te mudar. Não te ignora. Não trata seus sentimentos com irresponsabilidade. Não te inferioriza. Não tem inveja de você. Não é indiferente.

Um amigo zomba de você para te fazer rir. Conta orgulhoso façanhas suas para outros amigos. Respeita suas convicções. Contesta suas opiniões com educação. Te considera tão igual que poderiam ser irmãos. Te arranca de casa a tapas só para poder sair com você. Te provoca para te dar vontade te lutar. Te alfineta só quando quer dizer que te ama e não quer parecer babaca. Vira esteriótipo com você. Te lembra se ser sempre você mesmo. Lê todos seus movimentos. Cuida de você. Te elogia. Torce por você. Se preocupa.

Qualquer coisa fora disso te machuca, te atrasa, te diminui.

Ano passado foi a primeira vez que uma amiga minha faleceu. E eu fiquei tão acabada pelo fato de ter perdido a “amizade” dela, que demorei demais para perceber que os amigos de verdade não deixam de ser amigos nem quando morrem.

Amigos não deixam de ser amigos em nenhuma circunstância. Se deixam, é porque nunca foram de fato.