Sobre alguém que viveu ao contrário

E como fazia todos os dias ela entrou com certa pressa no cinema tropeçando nos próprios pés enquanto pessoas aleatórias a observavam. Corria como se estivesse fugindo de alguma coisa, mas na verdade só não queria perder a sessão de trailers que todos os dias era exibida na hora do almoço de forma gratuita.

Sentou-se e viu um por um. Todos eles acabavam na melhor parte. Todos eles deixavam-na curiosa para saber o que aconteceria a seguir. A grande maioria ela nem assistia depois. Era uma grande amante do cinema, o que ela não gostava era de saber o que acontecia no final dos filmes. Odiava assistir um filme e concluir quem era o assassino no meio dele. Era bom ser surpreendida.

Engraçado. Até pouco tempo surpresas não eram exatamente bem vindas. Gostava apenas de finais felizes, envolvia-se apenas com eles. Se fosse comprar um livro, antes de levá-lo lia o último capítulo para de certificar de que ninguém importante morria. Os filmes que levavam o rótulo de “drama” então, eram completamente esnobados. Prefira sem dúvidas um desenho animado a uma grande e emocionante tragédia. Pulava com o controle remoto até as partes frustrantes dos desenhos feitos para as crianças. Não sabia lidar com decepções ou perdas.

De fato, continuava preferindo os desenhos. E talvez ainda não fosse muito boa com perdas e decepções. Mas já não era um grande problema a personagem principal morrer no final, ou ficar solteira, ou pobre, ou infeliz.

Porque personagens eram apenas personagens e por mais que ela tirasse de sua vida, tudo de ruim que o mundo poderia oferecer, coisas ruins iam continuar acontecendo de qualquer forma. Não saber que pessoas morrem e o amor não é sempre correspondido e sonhos não se realizam, não evitaria que pessoas realmente morressem, sofressem por amor ou entrassem em depressão.

Estar sujeita a tudo a punha no jogo. Aumentava os riscos, mas também aumentava as chances. Gostava de finais felizes sim, mas acabara de perceber entre uma respiração e outra, que a parte preferida dela, eram os inícios.

Porque você pode iniciar o que quiser a todo momento. Mesmo que términos existam, você pode triplicar o número de inícios para que eles sejam insignificantes.

Momentos são curtos e é por serem curtos que formam grandes histórias. Histórias são longas e é por serem longas que não podem ser medidas apenas pelo final. Decidiu que veria todos os filmes daquela sessão de trailers. E veria todos os outros que não viu antes. Decidiu que diria mais sins do que nãos e que tornaria-se o mais inconsequente que pudesse ser (sabia que não seria muito). Decidiu que comeria quando quisesse a sobremesa antes da refeição, que tentaria subir pela escada rolante que desce, que usaria o sapato sem combinar com a bolsa, que sairia de batom borrado, que aceitaria viver o máximo de decepções que fosse possível, que leria todos os livros dramáticos do mundo, que usaria um vestido branco em um casamento, que não pintaria as unhas por um mês, que gritaria em um show até perder a voz e que quando perdesse a voz escreveria um livro sobre alguém que um dia resolveu aceitar a infelicidade e foi feliz pro resto da vida.

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