Eu não sei ser pela metade

Nunca soube. Se acho alguma coisa engraçada eu dou risada e não sei rir baixo. Também não sei segurar riso porque pra mim quem segura riso morre engasgado. Riso é feito pra sair, ecoar, contagiar, incomodar. Se eu acho alguma coisa engraçada eu dou risada mesmo, até quando não pode. Não sei rir pela metade.

Sempre gostei de ser a melhor da sala. Mesmo quando não era eu gostaria de ser e trabalhava pra isso. Estar entre os melhores não era o suficiente, eu queria ser a melhor em alguma coisa. Mesmo que fosse a melhor em contar piadas, ou a melhor em ajudar as pessoas, ou a melhor em comer o lanche da cantina mais rápido. Eu queria ser a melhor em alguma coisa e quando eu conseguia, eu realmente era. Percebi que era mais fácil ter pequenos talentos, daqueles que todo mundo esquece. Fui a melhor em ser desastrada, a melhor escritora de webnovelas da cidade, a melhor puxa-saco dos diretores, a melhor stalker de artistas. Fui a melhor em arrumar talentos que ninguém se importava. Não sei ser boa pela metade.

Quando eu prometo alguma coisa eu cumpro. Por isso nunca prometi coisas impossíveis como escalar uma montanha de costas. Mas já prometi que comeria pimenta pura, que rolaria colina abaixo, que passaria no vestibular, que cuidaria de alguém, que faria alguém dar risada, que passaria em testes de teatro, que conheceria meus ídolos e cumpri. Não sei prometer pela metade.

Eu já gostei de muitos alguéns. Gostei de verdade, com direito a cartas, declarações e lágrimas. Com direito a abraços, beijos e  mordidas. Com direito a juras de dedinho, cafunés, cócegas. Com direito a virar ouvinte de rock pesado e de sertanejo. Já gostei com direito de abrir mão e de sair fora quando vi que não ia virar. Com direito a ciúmes e revolta. Com direito a saudade que não passa e uma série de arrependimentos. Não sei gostar pela metade.

Já sofri. Daqueles sofrimentos eternos de chorar no quarto escuro e não sair por dois dias. Daqueles sofrimentos escondidos quando minha mãe estava doente e eu precisava ser forte. Daqueles sofrimentos gritados pra jogar na cara do mundo o tamanho da minha raiva. Não sofri quieta. Não sofri como uma lady. Não sei sofrer pela metade.

Sonho em abraçar elefantes. Em conhecer um grande amor. Em morar em Nova York. Em ter uma casa na árvore. Em ter meninas gêmeas. Em conquistar alguém. Em voar. Em comer sem engordar. Não sei sonhar pela metade.

Isso me torna desesperada, compulsiva, maluca, apelativa, apegada, possessiva. E sou tudo isso e mais tudo que existe no mundo. Um pouco de cada. Não sei ser pela metade.

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