Sobre adormecer sonhos

Tem uma fase da vida que a gente acha que toda reação precisa ser instantânea. Qualquer coisa que envolva “pensar antes de fazer” parece uma absoluta perda de tempo. O amor não pode esperar, a curiosidade não pode esperar, a vontade não pode esperar, os sonhos não podem esperar. Acho que o nome ideal para essa fase é  ”adolescência”. E ela não tem uma duração cronológica correta. Para algumas pessoas dura a vida toda. Você pode ter trinta anos e nunca conseguir realmente ser um adulto. Ou pode se tornar um adulto antes mesmo de ser adolescente. Meu pai costumava dizer que pessoas que sofrem muito na vida crescem antes das outras. Ele dizia isso quando eu estava sendo imatura por algum motivo. Aliás, é aqui que eu queria chegar: maturidade não tem tanto a ver com crescimento.

Esses dia, enquanto lia um livro, que na verdade eu considero um manual de instruções para sobreviver a adolescência, (As vantagens de ser invisível) eu percebi que existe um grande muro que divide o que a gente é quando adolescente e o que a gente se torna quando é adulto. E tudo gira em torno de sonhos.

Minha vida sempre foi dividida em sonhos úteis e sonhos inúteis. Chamo de sonhos inúteis os que podem ser realizados em qualquer fase da vida, até eu fazer noventa anos, caso chegue lá. E os sonhos úteis são aqueles que mudam nossa vida para sempre e tem prazo de validade. Um sonho inútil por exemplo é abraçar um elefante. Ou então, conhecer um popstar.

Durante toda minha adolescência eu tive certeza que queria ser atriz. E fui contra todas as pessoas que diziam que isso era impossível. E afastei todos os amigos que não me apoiavam com isso. E exclui quase permanentemente a possibilidade de relacionamentos antes de realizar meu objetivo. Isso é um sonho útil. E fui atrás, e trabalhei, e juntei dinheiro, e fiz cursos, e me aventurei, e deixei meus pais malucos. E continuei fazendo isso, com a certeza de que nunca ia desistir. Fui ignorando as dificuldades e tudo que dava errado. Fui ignorando as pessoas e suas opiniões sem importância. Ignorei tudo até que não consegui ignorar a mim mesma.

O que divide um adulto de um não adulto, é a capacidade de adormecer sonhos. Você começa a pesar as possibilidades e se importar com coisas que antes não se importava, como por exemplo trabalhar para um dia poder se aposentar.

Você percebe que seus pais não merecem te sustentar a vida toda, e que talvez o seu caminho esteja mesmo errado. Talvez as pessoas chamem de “sonho” porque uma hora você precisa acordar e viver a realidade.

E perceber isso, não é dar a si mesmo um atestado de infelicidade. É convencer a si mesmo que existem outras formas de ser feliz.

É mais doloroso no começo, abstrair-se de suas próprias convicções. Aquelas que você com um discurso inflamado, vomitou na cara de todo mundo que tentou te parar. Mas com o tempo você vai adormecendo o sonho, como se fosse um bebê agitado numa madrugada de terça-feira. E quando ele finalmente dorme você relaxa.

E pode continuar vivendo e descobrindo significados em outras coisas, onde normalmente você não conseguia ver. E abre espaço para novos sonhos úteis ou inúteis. E para novas pessoas. E para um novo você.

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Sobre aceitar rejeições.

Se você espera um texto que te ajude a superar rejeições pode esquecer. Não sou boa com isso. Nunca fui boa com nada que me afastasse das pessoas e coisas que eu gosto. Foi muito difícil eu perceber que não é porque você gosta das pessoas e as trata com consideração, que elas vão gostar de você.

Já vivi isso diversas vezes, no que diz respeito a relacionamentos amorosos ou quase relacionamentos.Começa cedo, quando na escola você é apaixonada pelo menino popular e ele te acha uma estranha, ou nem sabe quem você é. Pra esse tipo de rejeição eu criei uma defesa chamada orgulho e depois de algumas decisões erradas eu me proibi de não aceitar esse tipo de rejeição. Qualquer coisa que não envolva “nunca mais dar moral para o cara” pra mim soa como humilhação.

Mas eu ainda não aprendi a passar por rejeições dos outros tipos de relação, que não as afetivas. Por exemplo, rejeição de amizades.

Pra mim a regra era clara: se eu te considero meu amigo e sou legal com você, você é meu amigo também.

Sempre funcionou bem. Tenho amigos de longa data, que estão sempre comigo. Até os que moram incrivelmente longe. E então vieram devagar as primeiras decepções.

Pessoas que não se importaram em fazer esforço nenhum para continuarem minhas amigas depois de algum desentendimento. E eu fiquei lá, indo atrás, tentando conversar, mandando e-mails e me comunicando por diversos lugares. Até perceber que ninguém é obrigado a gostar de mim.

Que aquela frase chata e mela cueca que diz “não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam” é verdade mesmo. E quem fala muito dos outros para você, também fala de você para os outros. Aos poucos eu fui descobrindo que nem todos os que eu considerava “amigos para sempre” de fato eram amigos.

Sou muito boa em me recuperar de amores não correspondidos, mas sobre amizades perdidas, eu ainda não sei nada

Sobre recuperações instântaneas

Acho engraçado (agora) como a gente passa dias e noites desejando se recuperar de alguma coisa ruim que aconteceu e como a gente tem certeza de que aquele sofrimento vai ser eterno e que com oitenta anos ainda vamos nos sentir absolutamente infelizes. 

E então, sem perspectiva nenhuma de voltar a mostrar os dentes em um amplo sorriso espontâneo, a gente fica treinando na frente do espelho como parecer menos sofrida para que as pessoas não percebam nosso atual estado de calamidade emocional.

Fica pior quando você percebe que embora sua mãe tenha amor incondicional por você e sua amiga tenha feito coisas incríveis para te ajudar a melhorar, nem elas aguentam mais te ouvir lamentar.

Você passa a planejar uma vida solitária em cima de uma colina do estilo da dos telletubies para não contagiar o mundo com a sua infelicidade. Ninguém gosta de gente infeliz, então melhor presentear as pessoas com a sua ausência do que com essa presença desagradável. E quando você está de malas prontas…

Acabou o sofrimento. Assim, de um dia para o outro, sem tempo de dar mais uma choradinha ou ouvir uma última música da Adele. 

E nem se você fizer muita força vai conseguir lembrar o porquê de tanta tristeza. Nem se você tentar reviver tudo de novo só pra sentir mais um pouquinho de desgosto. O coração não tem mais buraquinhos, a cratera que a bazuca da ingratidão tinha deixado agora se fechou e você só pensa em malhar os cinco quilos ganhados daquele monte de besteira que você comeu nas sextas-feiras a noite.

Já foi. Tudo aquilo que fazia tanto sentido antes agora parece estar em mandarim. Você passa a acreditar que pode ter sido abduzida ou drogada por tempo indeterminado. Sente falta das lágrimas perdidas e se arrepende por tê-las gastado com alguma coisa que agora não é nada importante.

E volta a reclamar dos mosquitos, do trânsito, do calor, do governo, do efeito estufa, da inflação, da passagem do ônibus. E volta a rir das piadas sem graça do seu chefe, do playboy tropeçando na rua, das notícias bizarras do jornal, do chaves, dos vídeos do youtube, até zorra total passa a ter graça pra você.

Porque finalmente mudou e você não precisou fazer nada pra isso. Só sentar, chorar e esperar a dor passar. E quando você já acreditava que estava fadado a ser a pessoa mais  fracassada do mundo, ele girou. 

Ele faz isso de vez em quando. Gira sem a gente perceber, não adianta implorar para ele acelerar esse processo. Porque o mundo tem o tempo dele. Espera menina. Espera que uma hora gira.