Eu não sou daqui

Tem gente que acha que nasceu no lugar errado. E demora quase a vida toda para descobrir onde deveria ter nascido. A dinâmica da busca é simples: é só encontrar o lugar que te faz feliz.

Eu nasci no lugar certo. E acho que poucas pessoas tem a sorte disso acontecer. Quer dizer, eu nasci em um lugar cheio de pessoas iguais a mim. Não é o lugar perfeito. Mas é onde eu consigo me encontrar, me expressar sem ser julgada e desabafar com pessoas que me entendem.

Eu nasci no lugar certo, mas não moro nele. Porque a vida leva as pessoas o tempo todo para outros lugares, por motivos que a gente desconhece. E lugares errados são complicados.

Eu digo complicados e não ruins, porque não é impossível ser feliz em lugares errados. E é perfeitamente possível gostar de pessoas que são de lugares diferentes do seu. É gostoso   conviver com pessoas diferentes inclusive. Mas você consegue perceber o tempo todo a diferença das pessoas que são de lá e das que são daqui. E você sabe que as pessoas daqui sentem o mesmo sobre você. Você sabe que a maioria delas não te entende e apesar de gostar de você, reconhece que vocês não são do mesmo lugar.

É tipo fazer um intercâmbio eterno. Daqueles que você adora conhecer o novo, mas sente falta de casa.

Eu vivo numa eterna homesick, embora esteja em casa. E se pudesse escolher, voltaria para o meu lugar, de onde eu sei que pertenço e onde existem pessoas iguais a mim. Mas tem uma série de burocracias envolvidas. Nós de vida construídos no lugar errado e que precisam ser desatados para que você possa voltar para o lugar certo.

E enquanto isso a gente tenta engolir essa história de ser um peixe morando na areia. E tenta mascarar essa realidade de ser um et no meio de terráqueos. E de vez em quando tem uma crise ou outra, que te magoa e magoa as pessoas. E a única coisa que você pode dizer é, desculpa…eu não sou daqui.

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Memória de elefante

Se te importa tanto saber, eu digo. Ela ainda se lembra. Por mais que as pessoas a vejam na rua dançando enquanto caminha ouvindo música sem se importar com ninguém, ela ainda se lembra.

Por mais que você a tenha visto por aí tantas vezes depois que tudo acabou e ela nem ao menos tenha percebido que você a observava, eu garanto que ela se lembra.

Não há festa, nem trabalho, nem estudo que a faça esquecer.

Ela acha graça das coisas e não tem mais vontade de te ligar o tempo todo, mas ainda se lembra.

Ela faz coisas que não fazia com você e também faz sozinha o que vocês faziam juntos. Ela acorda pensando em outra coisa qualquer mas se você perguntar se ela se lembra, aposto que ela vai responder que sim.

Sabe por quê? Porque ela tem boa memória. E ela se lembra da primeira vez que vocês saíram, assim como ela se lembra do primeiro capítulo da novela que passava no ano passado.

Ela se lembra exatamente como era o seu cheiro da mesma maneira que se lembra qual era o cheiro daquela loção corporal que ganhou do último antes de você.

Ela se lembra das suas manias e também se lembra das manias do Malvino Salvador. Aquelas que ela leu numa revista de fofoca do ano retrasado.

Ela se lembra de tudo que você fez certo e errado. Se lembra cada vez que você a machucou sem perceber assim como se lembra de quando levou sete pontos na perna esquerda aos cinco anos.

E quando você aparece as vezes, dizendo uma coisa ou outra sem importância para mantê-la lembrando que você existe, ela simplesmente sorri e responde educada. Porque ela não precisava que você fizesse isso para que lembrasse de você.

Não precisava porque ela sempre teve boa memória. E ela se lembra sim. Mas não dói. Ela se lembra, claro. Mas não ama. Ela se lembra, sem dúvidas. Mas não quer repetir.

Porque lembranças e saudade são coisas absolutamente distintas. E apesar de ter memória de elefante, o coração dela é de gente. De gente que gosta de ser feliz, que procura andar com os dois pés no chão e evita tudo o que atrasa os batimentos do coração.

Vai ser uma vez

Se todas as histórias de amor começam com “era uma vez” a minha com certeza começa com “quase foi um milhão de vezes”. E se quase foi amor, não foi. E se não foi, não se trata de uma história de amor, só de uma história.

Então se eu precisasse de uma introdução para o livro da minha vida eu diria que ela está pronta.

Quase foi amor com o garoto da loja de cd’s. Quase foi amor com o vizinho de cabelo enrolado. Quase foi amor com o menino tímido do meu primeiro beijo. Quase foi amor com o sem vergonha daquela faculdade. Quase foi amor com o melhor amigo da minha amiga de internet. Quase foi amor com o garoto da van. Quase foi amor um milhão de vezes, mas não foi.

E embora quase tenha sido amor, doeu como se realmente fosse. E eu entrei debaixo dos cobertores acreditando que realmente era. E talvez até hoje eu me pergunte o que foi aquilo senão amor. E logo depois despergunto, porque é impossível que tenha sido amor um milhão de vezes. Ninguém ama um milhão de vezes. Foi desilusão.

Ou não foi. Porque (des)ilusão é aquilo que não é mais ilusão. E o que não é ilusão, é real. E se quase foi real, não foi de fato amor e nem desilusão. Era ilusão mesmo.

Era uma vez uma ilusão e duas e três e um milhão. E todos os des do mundo que eram possíveis de entrar para negar um sentimento. Era desilusão, era desamor, era desafeto, era descaso, era desespero. Era tudo isso, menos o que deveria ser.

Não teve pipoca, coca-cola, bala de goma, cinema, mãos dadas. Não teve passeio no parque, nem frescobol na praia, nem clube de jardinagem aos domingos. Não teve roda gigante porque era tudo montanha russa. Não teve tempo que curasse o amor porque ele não estava doente, ele só não existia.

Teve mentira e atraso. Teve lágrima, uma atrás da outra mesmo quando ainda parecia amor. Teve dor. Teve mágoa. Teve ilusão. Teve tanta repetição disso tudo que eu realmente me perguntei porque a gente demora tanto pra trombar com a pessoa certa. E pra cair em cima dela sem querer. E embolar os pés, as mãos, os corações. Porque que a gente atrasa a vida de tanta gente que também fica procurando o certo no lugar errado e machuca a gente. E se machuca. E se magoa. Porque não da pra simplesmente derrubar os livros no chão e esperar o cara da sua vida te ajudar a pegar? Porque não dá para ser uma vez?  Para a Cinderela, para a Branca de neve, para a Rapunzel, uma vez só foi o suficiente. E pra mim também ia ser. Ia ser uma vez incrível. Dessas com direito a aparecer em filme de romance e encher a cara de DESilusão porque quem já tem amor não precisa se iludir.

Eu não sei se você se lembra.

Não sei nem ao menos se você chegou a perceber. Mas ela tinha medo. Tinha tanto medo que quando você chegou ela vomitou uma série de palavras desconexas, mas que juntas significavam: cuida de mim. Ela tinha tanto medo que nunca tinha confiado em alguém, mas você com toda aquela cara de bom menino, conseguiu convencê-la. Ela tinha tanto medo que depois de algum tempo, quando não podia mais voltar atrás, rezava todas as noites para que você não fosse idiota de perdê-la, mas olha só para você agora…Você perdeu.

Você perdeu e ela chorou por algumas noites sem entender o que tinha feito de errado. Foi você que perdeu, mas ela não percebeu isso porque na cabeça dela o problema não vinha de você. Você perdeu, mas não quis demonstrar que perdeu. Talvez você não tenha nem percebido que de fato perdeu. Naquele momento, porque agora você percebe mesmo que você embrulhou ela para presente e então jogou fora. Perdeu.

E assim como a sua vontade passou o tempo também passa. E a tristeza passa. E a paixão passa. Mas tem uma coisa que fica e você sabe muito bem que fica: a culpa.

Isso você não perdeu. E eu sinto muito que você se culpe por isso. Eu sinto mais ainda por ela que não faz a mínima ideia que você se culpa. Eu sinto por você apesar de sentir culpa, não ter coragem de dizer e explicar para ela que você errou.

Sinto muito só por você. Porque ela segurou na mão do tempo e foi embora. Foi conhecer outras pessoas. Foi ter medo em outros lugares. Foi sofrer de outras maneiras. E hoje ela não tem culpa. Hoje ela não tem medo. E ela tem o mais importante que alguém pode ter: ela mesma.

Ela perdeu as coisas ruins e você as boas. Ela ficou com as coisas boas e você com as ruins.

E ela não precisou fazer nada para você perceber isso. Ela nem sabe que você percebeu isso. Ela só continua segurando na barra da saia da vida, que balança com ela e leva pra lá e pra cá, enquanto você não sai do lugar.

heterocromia

A verdade é que nada mudou desde aqueles dias. Você continua o mesmo idiota com os mesmos cabelos escuros que quando grandes, caem no começo da sua nuca em caracóis. Continua o mesmo imbecil com dentes milimetricamente separados que te conferem um ar imaturo e você odeia. E de fato, acredito que odeie porque você continua o mesmo imaturo de sempre, que prefere assistir um jogo de futebol a  ter uma boa conversa e assim perde cada dia um pedaço importante das pessoas.

Aposto que você ainda tem aquela quase heterocromia, uma alteração genética que faz com que as pessoas tenham um olho de cada cor, e é por isso que eu nunca consegui concluir se seu olho era verde ou castanho. Mas além da heterocromia eu tenho certeza que você ainda evita olhar nos olhos quando precisa dizer algo importante.

A sua rotina mudou e talvez você não tenha mais o mesmo carro ou a mesma namorada ou a mesma gata de estimação. Talvez você não goste da sua antiga banda preferida e ache que seus livros de antes não fazem sentido nenhum agora. Considerando sua extrema indecisão eu penso inclusive que você muito provavelmente, ainda não comprou sua casa dos sonhos simplesmente porque não conseguiu escolher entre a praia e a montanha. E minha dica é que você vá para a montanha e se isole do mundo, porque se eu te conheço bem, você ainda é o mesmo antissocial.

Você ainda deve se contradizer dizendo que odeia cantar, mas cantando todo dia no chuveiro. Ainda deve se enganar repetindo para si mesmo o quanto gosta daquela mulher, para ver se isso começa realmente a fazer sentido no seu coração, mas não faz. E então você ainda deve enganar os outros, mesmo sem querer. E machucar os outros sem perceber. E pedir desculpas, mas no fundo mesmo, nem você aceita suas próprias desculpas.

Então prefere fumar uns dois ou três cigarros antes de decidir quanto tempo seu coração vai ficar fechado dessa vez. O que você não sabia e com certeza ainda não sabe, é que ele nunca esteve aberto.

E você ainda deve se arrepender de ter deixado aquela moça ir embora. Aquela dos cabelos hora louros, hora castanhos e de  tristes olhos enormes e azuis. Aquela com o pulso tão fino quanto o de uma criança, a voz mais irritante que de uma gralha, torneiras quebradas dentro das pálpebras e um bocado de dor dentro do coração. Aquela que pediu para você ficar e que tentou, a maneira dela, cuidar de você. Aquela que não conseguiu e implorou por uma chance. Aquela que te perdoou embora nem você tenha se perdoado. Aquela que por fim casou-se e agora vive feliz.

E se pergunta vez ou outra se você continua o mesmo idiota de sempre. E evita encontros casuais para não ter que olhar nesses seus olhos heterocromados. E sente muito por você  continuar assim, dentro dela.

Eu prefiro as vésperas

Já tem um tempo de uma tradição que eu inventei sozinha (e poucas pessoas sabem) de dar parabéns no dia anterior ao aniversário. Acho que comecei a fazer isso porque nunca achei que acontecesse muita coisa quando o relógio passa da meia noite. Mas achava que acontecia antes disso.
Eu sempre preferi as vésperas. De ano novo, de natal de aniversário. Porque nós nunca ficamos tristes quando as vésperas acabam. São dias que nasceram para ser felizes o tempo todo. Então é por isso que eu prefiro desejar as pessoas feliz “véspera” de aniversário.
Porque eu espero que a véspera seja aquele dia fortalecedor. Que as pessoas relembrem tudo de bom que aconteceu durante esses 364 dias e que tomem cuidado para não esquecerem de que a maior parte das coisas foi boa.
Espero que na véspera as pessoas se preparem para mais 365 dias onde lutarão para realizar seus sonhos e vontades.
Espero que todas as frustrações que possam ocorrer no dia do aniversário ocorram na véspera. Porque vai ser possível pensar “tudo bem, amanhã vai ser o MEU dia e vai dar tudo certo, isso é só uma véspera”.
Espero que a véspera seja simplesmente feliz e que traga um daqueles votos que sempre esquecemos de desejar quando damos os parabéns: esperança.
Porque é a esperança e só ela que nos garante que as vésperas se tornarão dias reais.