E lá vai ela, com dois pés esquerdos,

E lá vai ela, com dois pés esquerdos, aquele sorriso bobo no rosto e piadas que não tem graça nenhuma. Vai tropeçando pelo caminho enquanto exibe o esmalte descascado das unhas e não se importa com isso. Vai se afogando nos próprios cabelos que são bem maiores do que qualquer história de amor que ela já teve. Lá vai ela, rainha da expectativa que em pensamento já casou oito vezes e viajou para os lugares mais incríveis do mundo.

Ela vai e volta com mil cortesias e carinho de sobra. Diz bom dia para quem conhece e para quem não conhece. Sorri para qualquer ser vivo na rua exceto para as baratas, dessas ela foge. Anda com a cabeça no mundo da lua e os pés o mais distante possível do chão. Apega-se a velhas histórias que não deram certo para sentir alguma coisa e tem medo dessas pessoas que andam por aí e não sentem absolutamente nada.

E vai sentindo saudade das coisas boas que já foram. E mais ainda das coisas que nunca aconteceram. Um rapaz sorri para ela na rua e ela começa a divagar sobre o nome dele, talvez Adalberto ou Stênio. E também sobre a profissão dele, poderia ser um cuidador de elefantes em algum lugar de nome estranho e estava ali só de passagem. Ou até mesmo um mágico de circo para que ela pudesse enfim desaparecer com algumas coisas que continuavam empatando o seu caminho. Mas na verdade era só o Rafael, cara de pastel babaca como todos os outros caras que já tinha conhecido. E a rainha da expectativa coleciona mais uma decepção criada pela sua própria cabeça de vento.

E continua indo. Sem rumo nesse mar de ilusões dentro do próprio coração. E recolhendo os pedacinhos que um dia caíram no chão até se reerguer para criar mais expectativas para serem quebradas. E sorri cambaleando na vida, porque nada pode ser tão ruim a ponto de impedi-la de se reerguer.

Dona do emaranhado de sonhos que sai da cabeça de louca e brota pela boca e pelos ouvidos e emite as mais desconexas palavras de afeto quando decide que está na hora de tentar outra vez.

Síndrome de Peter Pan

Um dia, um cara chamado Peter Pan, que usava um tipo de roupa que não era tendência e era taxado de estranho, disse que não queria crescer porque o amor acaba, quando as pessoas crescem. Provavelmente ele esteja bebendo em algum boteco por aí, tentando esquecer que ficou velho e a única coisa que eu sei, é que ele tinha razão.

Há sentimentos que passaram por mim quando eu tinha doze anos e que hoje, com a idade ao contrário, eu me vejo incapaz de reviver. A verdade é que eu sinto falta de quando as pessoas gostavam umas das outras de graça.

Quando a gente é criança, se apaixona perdidamente pelo colega que senta na cadeira da frente, sem ele precisar fazer nada para isso. Ele só precisa ser ele mesmo, para que um dia, de repente você perceba que gosta dele. Isso não acontece depois que a gente cresce.

Porque quando se é criança, não existem artifícios. Você gosta do menino independente do que ele quer ser quando crescer, da bicicleta que ele tem e nem se preocupa com a fama, já que ele não tem uma. O fato dele cuidar bem dos brinquedos, significa que ele também cuidará bem de você. E longos namoros se sustentam em mãos dadas e beijos na bochecha.

Eu sinto falta de quando as pessoas se apaixonavam primeiro, para depois se beijarem e me pergunto a que momento os adultos inverteram a ordem das coisas. Por que agora a gente precisa fazer um test drive antes de gostar de alguém? E por que esse maldito teste precisa durar tanto tempo? E por que você precisa ser impecável durante todo esse tempo para que a outra pessoa simplesmente não “desista de gostar de você” ?

Peter Pan tinha razão. Não tem magia nisso.

 

 

Pode ir

Agora você pode ir. Pode ir tranquilo que aqui não sobrou nada que te falta levar. Na sua bagagem tem tudo que você poderia ter conseguido. Tem mais do que você merecia ter levado e você sabia disso quando ficou até levar tudo.

Agora você pode ir. E pode levar aquela menina estranha que vivia por aqui quando você ainda estava por perto. Porque ela também esvaziou e agora não faz sentido continuar por aqui.

Vai logo e leva sua culpa que não existe. Leva tudo de você que ficou por aqui e todos aqueles bons sentimentos que alguém tentou te dar. Leva porque se tentaram tanto é porque foi de coração. E também porque você precisa muito mais disso do que quem ficou. Porque quem tem amor demais para dar é porque não precisa de tanto para viver.

Mas deixa tudo aquilo que ela tentou entregar e você fez pouco caso. Deixa aquela coisa sem sentido que tem gente que chama de carinho. Deixa a atenção, a compreensão, os sorrisos,  os abraços de urso, as juras de dedinho. E aquilo que um dia era para ter sido e não foi. Porque alguém vai pegar tudo o que você quis ignorar. Então pode levar todo o resto.

Pode ir e fazer o que sempre quis. E viver a vida do jeito que acha certo. Mas vai. Vai de uma vez, porque aqui não sobrou nada para você.

Avesso

Larga dessa vida de tentativas perfeitas e vem virar do avesso comigo. Porque de dentro pra fora a gente conhece primeiro tudo que deu errado, pra depois conhecer o certo. Porque é de dentro pra fora que a gente se machuca, mas depois se cura. Porque é de dentro pra fora que é de verdade.

Para com essa mania de querer viver do jeito tradicional e vem tentar andar plantando bananeira comigo. Porque quem anda com os pés no chão tropeça o tempo todo no que não deu certo. 

Vem fazer ao contrário. Me odeia primeiro pra depois gostar de mim. Finge que a gente ainda é criança e me chama pra ser seu par na festa junina. Me chama pra fazer arte com você e depois ri comigo na diretoria.

Esquece a ordem natural das coisas. Porque a gente é naturalmente bagunçado. Porque a gente nasceu pra dar errado. Então vem começar de traz pra frente, pra gente acabar na hora que da certo.

 

Daqui a poucas horas nasce Melina.

Não importa quando ela nasceu dentro de mim, porque isso sim faz muito tempo. Mas Melina surgiu porque eu quis traçar um futuro para você, diferente do que eu sabia que você estava prestes a viver.

Melina surgiu porque eu achei justo te libertar de todas as responsabilidades que você talvez jamais será liberta, simplesmente porque eu achei que você merecia em algum lugar do mundo ser você mesma.

Melina foi feita para fortalecer o laço inexistente entre você e a insanidade. Porque embora você pareça louca, o que acontece é que você tem de ser normal demais desde muito pequena.

Pois bem, daqui há algumas horas você vira Melina. E para minha surpresa, muito mais parecida com ela do que eu esperava.

E isso me torna parte da sua vida, ainda que você nunca venha a saber. Porque um dia eu decidi que gostaria de escrever uma vida para você e fiz. Foi a maneira que eu encontrei de agradecer por você ter feito parte da minha.

Dizem que quando a gente é muito grata a alguém ou gosta muito dessa pessoa “daria a vida por ela”. E eu te dei Melina. A vida que eu inventei. Que tem metade de mim e metade de você. Que tem seus defeitos maximizados. Que tem seus sonhos expostos de forma caricata. Mas mais do que tudo isso, tem toda a felicidade que eu já desejei para você.

Meu presente de trinta anos é ela. E vai de você seguir nossos conselhos. Los Angeles está perto demais.

Parabéns

Aquela menina

Que engraçada era aquela menina que guardava nos olhos a vontade do amor. E não sabia se de fato era louca ou maluca, mas normal não seria, enquanto acreditasse naquela história de que em algum lugar no mundo existia a pessoa certa para você, para mim, para ela.

E tinha duas torneiras quebradas nos olhos que não paravam de escorrer sentimentos. Que menina estranha que tinha para dar ao outro, carinho demais. E as vezes o outro não queria e por não ter onde colocar esse tanto de amor, ela transbordava, inundava, escorria.

E tinha tanta vontade de mãos dadas que de vez em quando segurava nas mãos da incerteza e ia. Mas não sabia correr e sempre caía, voltando toda ralada desistindo de brincar.

E não entendia essa gente que tinha medo de se entregar, porque sabia que quem se entrega, se não gostar, pode se buscar.

E gostava de se sentir princesa. Mas as vezes parecia a boba da corte. Daquelas que entretêm a nobreza até acharem alguma outra coisa com mais beleza.

E se chateava. E não entendia. E esperava que naquele mundo um dia, aparecesse alguém (senão o príncipe, podia ser o sapo) a quem ela poderia entregar aquela coisa que nela veio com defeito de fabricação. Aquela que quando está perto da pessoa amada faz um barulhão. Aquela que tem gente que troca por pedra, dinheiro ou até outro fígado, mas na verdade chama coração.

 

Dói

Se tem um texto verdadeiro nesse blog é esse. É tão verdadeiro que eu nem sei se tenho coragem de escrever. Tão verdadeiro que se fosse possível restringi-lo só para mulheres, eu faria isso.

Vez ou outra eu me sinto como uma orientadora de homens perdidos. Porque até hoje nenhum dos meus rolos desenrolou. Todos eles querem ser livres e curtir a vida antes de escolherem uma pessoa só. E então, logo depois de mim. eles encontram a pessoa certa.

Não é aquele tipo de coisa que me faz sentir a pior pessoa do mundo. Eu consigo viver com isso. E consegui superar a última vez que isso aconteceu, e a penúltima, e a antepenúltima.

Mas de vez em quando, naqueles dias que o coração acorda meio vazio, dói. E eu tento não me afundar naqueles pensamentos do tipo “o que tem de errado comigo?”. Mas as vezes eu afundo. E só subo quando penso em outras coisas que não a minha vida pessoal.

E me defendo. E me fecho. E me escondo atrás das minhas próprias faces. E todo mundo pensa que eu sou feliz o tempo todo. E que eu sou bem resolvida. E que não ligo para nenhum desses babacas que “perderam” por não ficar comigo. E eu deixo todo mundo pensar assim.

Mas a verdade é que eu ligo e vez ou outra, dói.