Rainha da expectativa

Uma vez conheci um cara que enlatava sentimentos dentro do próprio coração. Eu achei estranho, mas ele dizia que era mais seguro sentir uma coisa por vez, bem separadinha para não ter confusão. Jurava que era mais feliz que eu, que pareço um liquidificador com tanta coisa pra sentir ao mesmo tempo. Mentira. Ele não chorava, isso eu assumo, mas quando amava fazia cara de prisão de ventre. Porque o amor nunca vem sozinho, puro, único. Vem sempre acompanhado de um monte de outras coisas que ele tentava segurar. Fui embora com medo que ele explodisse e nunca mais vi. Dizem por aí que ele morreu sufocado, mas eu acho que na verdade ele ta só esperando alguém para ajudá-lo a desentalar.

Eu, pelo contrário, raras vezes me entalo. Acontece de vez em quando, quando eu não consigo segurar a carga de sentimentos misturados e tento engolir o choro. Mas depois de engasgar, cuspo um monte de palavras sem sentido aqui e abraço um elefante mentalmente, costuma dar certo.

Também conheci gente que dizia que não criava expectativas. Eu sei que é mentira, todo mundo cria expectativas. E eles também sabem que essa história de propagar o estilo de vida que não cria expectativas é um modo de alimentar a própria expectativa de não esperar nada de ninguém.

Eu coleciono expectativas. Tenho tantas que costumo dizer que quando morrer vou precisar de dois caixões: um para mim e um para elas. E garanto que o delas vai ser bem mais pesado que o meu.

Já ouvi muito malandro colocar a culpa da decepção nas expectativas. Caô. Quem machuca não é a expectativa. É a falta de empenho em surpreender. É o descaso. O desinteresse. A mentira. Isso machuca. Expectativa é só sonho. Daqueles que se sonha acordado e a gente controla o início, o meio e o fim.

Fui coroada enfim, rainha da expectativa. Dessas que casam e descasam um milhão de vezes em pensamento. Dessas que recebem oitenta buquês de flores imaginários em datas especiais e nem tão especiais assim. Dessas que comemoram, mentalmente o aniversário de cinco anos de namoro com o bonitinho que lê qualquer livro legal no metrô. Dessas que tem respostas perfeitas para todas as discussões que nunca existiram. E nenhuma resposta para suas próprias perguntas.

Mas que esperam o melhor o tempo todo, ainda que o melhor demore a chegar.

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