Sobre amizade de balada

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Outro dia escutei minha vizinha, que no auge dos seus oitenta anos é bem menos sedentária do que eu, dizer para a filha dela que iria sozinha para o posto de saúde naquela tarde. A filha visivelmente preocupada, perguntou a ela porque não chamaria a Dona Josefa, nossa vizinha de frente.

Com um pouco de mágoa na resposta, minha vizinha disse em alto e bom tom que sua amiga estava sempre disposta a acompanhá-la nas caminhadas e nos bailes da terceira idade. Mas quando ela precisava de companhia para ir ao banco receber a aposentadoria ou passar em uma simples consulta no médico, Dona Josefa arrumava uma desculpa.

O que minha vizinha estava tentando explicar para a filha, é que Dona Josefa é só amiga de balada.

A verdade é que todo mundo tem ao menos um amigo de balada. Aquele que topa todos os passeios, viagens, shows. Que tem um milhão de fotos com você e que acumula histórias engraçadas que vocês já passaram juntos. Mas quando precisa te ajudar em algum trabalho, te acompanhar até o hospital, te consolar de um coração partido, geralmente arruma alguma coisa melhor para fazer e te enche de desculpas.

Isso não é um julgamento. Talvez você mesmo seja amigo de balada de outras pessoas e não faça isso por mal. Amizade de balada se camufla nas luzes, no álcool, na praia, na mesa do bar. Se a gente não souber diferenciar, pode ser surpreendido com uma decepção. E decepção que envolve amigos, dói bem mais do que a que envolve amores.

Não é porque tinha alguém para rir com você das suas piadas num sábado animado ou alguém para segurar seu cabelo num banheiro escuro de balada que essa pessoa se torna seu melhor amigo. Não é porque seu melhor amigo resolveu ficar assistindo filme em casa e não quis sair com você, que ele perdeu o posto. Certas coisas merecem ser relevadas.

Amigo da vida sempre está no meio das histórias ruins, dos passeios sem graça, dos “programas de índio”, na madrugada da internet, no supermercado empurrando o carrinho, te ajudando a trocar o pneu, te machucando como palavras duras quando você está merecendo uns tapas e até te perdoando por ter sido temporariamente trocado por um amigo de balada.

Há boatos de que minha vizinha levou um bolo de fubá para a Dona Gertrudez, uma senhora que morava na nossa rua e se mudou há alguns meses. Dizem também que ela  se desculpou por essa confusão de sentimentos colocando a culpa é claro, na péssima memória que a idade tem lhe causado.

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