Carta para um amor superado

Oi,

Eu to te escrevendo pra dizer que eu te superei. E acho que você já sabe disso porque há dois anos eu não procuro saber onde você está e o que está fazendo. Eu também passei a evitar encontros casuais e me limitei a ficar distante dos lugares que você poderia aparecer. Mesmo que você não aparecesse neles nem quando eu te procurava. Eu te superei de um jeito que por mais que eu ainda sinta aquele arrepio desagradável na espinha quando escuto seu nome, agora eu permito que as pessoas o pronunciem desde que seja de forma rápida e mantendo um tom de voz ameno.

Eu estou escrevendo para dizer que eu superei a sua foto amassada que ficava dentro da minha bolsa e eu pegava quando queria lembrar de você. Superei até aquela lembrança do nosso quase último encontro que eu guardava bem escondida dentro da gaveta de meias. Joguei tudo fora, cada lembrança que restava em mim de você ou de nós. Tudo que poderia ter um vestígio do que você é, eu me livrei. Eu parei de me preocupar com quem você estava, onde você estava e se algum dia você ia aparecer aqui por perto. Eu te superei num nível que eu não precisei mais escrever sobre você durante muitos meses da minha vida. Porque acho que agora eu estou inflando mais devagar e antes eu era tão cheia de você que precisava esvaziar por algum lugar e eu preferia escrever do que chorar. Ainda que no fundo eu soubesse que toda vez que eu fosse escrever sobre você cairia uma lágrima daquelas fugitivas.

Eu superei aquela história de dormir mexendo os dedos da mão direita como se te fizesse uns cafunés. E ao invés de contar teus fios de cabelo eu passei a contar carneirinhos, como a maioria das pessoas. Aquele meu medo de você me assombrar a noite quase sumiu, hoje eu já apago a luz principal do quarto e consigo ficar tranquila só com um abajur. Quer dizer, menos nas datas especiais como o dia do seu aniversário e o último dia que a gente se viu antes de eu te superar.

Hoje eu conto nos dedos as vezes que chorei lembrando de você e garanto que elas quase não existiram nos últimos anos. Foi mais no primeiro mês, quando acontece aquela fase de aceitação e a gente quase desidrata achando que dá pra lavar o coração. Na verdade não da não. O meu continua sujinho sujinho, mas tudo bem porque eu superei.

São poucas as vezes que eu sinto seu cheiro no meio da multidão. Agora acontece só quando eu bebo demais. E é nessa hora que eu ouço sua voz também. Geralmente quando eu vou deitar meio tonta eu escuto você dizendo que é para eu dormir de lado para que não me asfixie durante a noite e uma série de broncas que as pessoas que se preocupam, dão quando veem alguém de quem gostam bêbado. Na semana passada enquanto eu escrevia um trabalho para a faculdade eu pude jurar que te ouvia dizendo aquilo que você sempre dizia: que meus dedos compridos batendo nas teclas do computador e soltando sentimentos parecem com o de uma pianista tocando uma canção de amor. Sempre achei isso uma bobagem e hoje acho ainda mais, porque é visível que eu te superei.

Aconteceu de eu publicar um livro que tem mais você que letra A (agora parafraseando com todo o respeito Clarice Falcão). E acho que você se orgulharia disso, já que livros fazem parte daquela sua imagem culta, da qual você nunca abre mão.

No último final de semana minhas amigas falaram muito sobre você, porque elas sabem que agora não tem problema nenhum, já que eu te superei. E cada vez que elas diziam o seu nome, não sei se por mania ou por estresse, eu dava uma piscadinha com o olho esquerdo. Uma coisa que chamo secretamente de “tique de você” que foi uma das poucas coisas que restou desde que eu te superei.

E é porque eu te superei que eu venho te dizer que os teus olhos já não tem o mesmo significado para mim. E que eu só os vejo toda noite quando fecho os olhos ao deitar. Isso demonstra um grande ato de superação, já que eu costumava enxergá-los todo dia, sem parar. E é ao deitar que meu coração sujinho me pergunta se eu não gostaria de pedir a Deus pela sua eterna felicidade. Pergunta se eu não gostaria de rezar um pouquinho para que você esteja bem onde quer que esteja e mais do que isso, que esteja sendo amado por alguém que sinta que vai explodir de tanto você que tem dentro dela. Pergunta se eu não poderia deixar sair bem de fininho duas lágrimas que gostam de passear pela noite, e eu deixo porque você sempre me disse que todo mundo merece ser livre. E é da superação que eu me liberto debaixo de todos os lençóis e edredons, no quase escuro do meu quarto vazio, no incômodo do meu travesseiro molhado, nas minhas mãos que ora parecem de pianista e outrora de maluca que mexe os dedos fazendo cafuné em alguém que já foi superado.

 

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