O que divide o quase e o nada.

cafe

O que divide o cosmopolitan  e a xícara de café na manhã de um domingo ensolarado, vai muito além do quente ou frio que a gente sente quando eles escorrem pela garganta. Tem menos a ver com os ingredientes que a gente usa e mais com a forma que usamos. E pode ter certeza que as mãos que viram a taça e a xícara são tão distintas que um dia podem ser as mesmas. Porque é nessa confusão de quente e frio, diferente e igual, noite e dia, que a cereja do cosmopolitan e a borra de café de encontram.

É quase como dormir com uma camisola vermelha de seda e acordar usando um pijama cheio de elefantes. Ou deitar com o cabelo meticulosamente arrumado e quase sufocar com ele durante a noite. Ou observar lentamente como cílios falsos escorrem pelas bochechas na manhã de quem não teve vontade de tirar a maquiagem. É sofrer uma metamorfose durante os ínfimos minutos de uma madrugada e finalmente: não se importar. Porque das diversas maneiras que existem de se preparar um cosmopolitan antes de deitar, nenhuma seria útil para passar um café antes de acordar.

Só existe um segredo para acordar rápido com um café forte em um domingo lento: permitir-se.

O que divide o instante de um momento, do eterno de uma vida vai muito além dos ponteiros do relógio, ou do passar dos dias, ou do calendário inteiro. Tem mais a ver com entrega do que com renúncia. É a linha tênue entre a certeza do que é e o medo de não se sentir completamente seu. Aquela história estranha do peixe que morreu afogado porque não sabia nadar, ou porque não quis nadar.

Só existe uma saída para não morrer afogado em seu próprio mar: permitir-se.

O que divide o quase do nada não existe. Porque o quase nunca chegou a ser alguma coisa. É tentar pregar um quadro na parede com um pedaço de chiclete. Ou adoçar o café com sal. Ou preparar um cosmopolitan com água de salsicha. Quases sempre viram nadas.

Mas o que de fato divide o medo do sábado, do alívio de acordar no domingo e preparar um café para alguém que não é você, tem mais a ver com coragem do que com cautela.

Existem duas formas de fugir do nada: a primeira é não se apegar a quases que não se permitiram e a segunda é, mais uma vez, se permitir.

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