Meio você

 

Eu vou te contar que quando eu me sinto muito machucada por alguém e tenho a impressão de que nunca vou me recuperar eu fecho os olhos e lembro de você.

Eu também quero que você saiba que das vezes que eu pensei que era impossível um cara gostar de mim de verdade me acalmou pensar em você.

Nos momentos em que eles me explicavam com paciência que gostavam de mim, mas não o suficiente para ficar só comigo eu pensava que a única pessoa que eu aceitaria ter como amor platônico seria você.

Faz mais de um ano do meu ponto final. E eu tenho mais um segredo. Toda vez que eu escrevo ponto, digito poncho primeiro.

E acho que vai ser sempre assim. Você daí vai funcionar como meu porto seguro, meu carregador de baterias, meu pilar emocional.

Porque se é pra ter alguém pela metade, eu prefiro ter você.

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I wish I could just make you turn around

 

Eu tenho vergonha de mim. Por me sentir assim, mas tenho mais vergonha ainda por te sentir assim.

Eu tenho vergonha de culpar uma a uma as pessoas que me fizeram ficar sempre longe de você, que não mexeram um único dedo para me ajudar, que ficaram assistindo para ver o que iria acontecer. E eu as culpo incansávelmente dentro de cada pedaço da minha cabeça mesmo que eu saiba que elas não tem culpa alguma. Mas eu preciso ter alguém para culpar.

Ainda que esse alguém seja eu. Eu preciso provar para mim mesma que eu sou a culpada, que tudo que deu errado até hoje é culpa exclusiva minha, que você existir em mim é culpa minha e não sua.

Mas eu não consigo me culpar, te culpar ou culpar qualquer outro.

Algumas vezes eu respiro fundo e repito para mim que não há nada que entender. Que na verdade o que aconteceu e vem acontecendo e não para de acontecer é uma daquelas coisas sem explicação e sem importância. E o fato de nunca poder te ter perto de mim não afeta o mundo, não afeta você, só me afeta.

Então, qual a relevância de algo que só afeta uma pessoa em um mundo com tanta gente?

Mas o problema é que EU não consigo. Eu não consigo superar um estúpido monstrinho que mora dentro de mim e faz o que eu peço para os outros não fazerem: grita seu nome, mostra seu rosto, soa sua voz, exala seu cheiro ainda que eu JAMAIS tenha sentido esse cheiro.

E eu tenho vergonha de mim por não ser capaz de esquecer essa história ridícula que nunca aconteceu e nunca vai acontecer. Eu tenho vergonha de mim por não conseguir colocar um ponto final. Eu tenho vergonha de não assumir que eu tentei e fiz o que pude o tempo todo e não deu. Então não tem mais o que fazer.

Então eu imploro para que as pessoas me ajudem a esquecer. Para que o MUNDO me ajude a esquecer. Eu imploro para as letras do seu nome sumirem do alfabeto, para suas fotos desaparecerem de todos os lugares, inclusive da minha mente. Eu imploro para parar de sentir seu cheiro, imploro para as pessoas pararem de dizer seu nome e pararem de comentar sobre você. Mas elas não param e eu também não.

Então eu guardo tudo dentro de uma enorme gaveta. Eu guardo seus cabelos, seus olhos, sua voz, seu jeito. Eu guardo meu ódio, minhas lágrimas, minha decepção, minha revolta. Eu guardo o seu nome, as suas fotos, eu guardo você dizendo o meu nome.

E eu peço para todos eles que por favor escondam a chave e não me mostrem nunca mais. Mas sempre vem alguém e mostra.

E chaves abrem cadeados, que abrem gavetas, que abrem feridas.

Tem sempre alguma coisa que me lembra você.

Pode ser um avião bobo cortando o céu pela manhã quando eu ando apressada a caminho do trabalho e me faz lembrar que você um dia quis ser piloto de avião embora atualmente passe mais tempo indo de um lugar a outro do mundo por outro motivo.

Pode ser algum jogo ridículo de futebol que me deixa entediada a grande maioria do tempo mas que com certeza te deixa nervoso o suficiente para virar o pote de pipoca na mesinha de centro quando acontece alguma coisa ruim.

Pode ser um perfume que eu sinto quando algum homem bem arrumado passa ao meu lado e ao invés de reparar nele eu imagino o quão parecido com aquele perfume é o seu.

Pode ser um trailer de um filme nacional que passe enquanto eu espero para assistir um filme de comédia sozinha no cinema antes da aula da faculdade começar e eu imagino como seria você brigando comigo porque quer assistir o que o cinema Brasileiro tem para mostrar ao invés da nova comédia do Adam Sandler.

Pode ser um sorriso de menino, um cabelo cacheado, um olho meio verde meio castanho. Não. O olho não pode ser. Só existe você com esses olhos no mundo todo e eu tenho certeza ainda que não tenha os visto de perto.

Pode ser quando eu estou conversando sobre coisas banais com alguém que um dia pode chegar perto de você e te abraçar e eu involuntariamente penso “Meu Deus, será que você sabe o que isso significaria para mim? Você sabe quantos minutos da minha vida eu trocaria para sentir aquela presença e olhar naqueles olhos? Você sabe o que eu sentiria se fosse eu no seu lugar?” Não sabe. Nem eu sei.

Pode ser uma música que fale sobre amor, amizade, admiração. Pode ser inclusive quando eu encontro no meu caminho o ódio. Porque é ódio que eu tenho desses sentimentos ridículos que eu mantenho por alguém mais ridículo ainda e que não fazem sentido nenhum. Ódio de desejar uma vez na vida uma coisa que luta com todas as forças sempre para não acontecer. Ódio do destino que me escreveu, soletrou até desenhou “ESQUECE”.

Mas não da seu estúpido. Não da para esquecer uma coisa que você lembra o tempo todo.

Existe alguém do outro lado do mundo que você nunca vai conhecer.

 

Alguém que nunca vai te ver sorrindo, que nunca vai rir de uma piada sua. Alguém que não vai pegar na sua mão, que não vai olhar nos seus olhos. Alguém que nunca vai trombar apressado com você na rua ou pedir para te pagar uma bebida em um bar.

Existe alguém que nunca vai te ver chorar. Que nunca vai sofrer por você. Alguém que não vai te dar um chocolate na páscoa, um parabéns no seu aniversário, um sorriso tímido dentro do metro.

Existe alguém no mundo que pode passar do outro lado da rua e vai andar sempre na direção oposta  a que você anda. Alguém que vai estar tomando banho se um dia você aparecer na televisão e vai estar com o celular desligado se acontecer de você discar um número por engano.

Existe alguém que não vai te cobrar. Que não vai te julgar. Que não vai brincar com seus sentimentos. Alguém que talvez seja a única pessoa do mundo além de você que gosta de tomar achocolatado enquanto ouve beatles mas isso não vai ser o suficiente para fazer que vocês se encontrem.

Existe alguém que nunca vai ouvir de você “prazer em conhecê-lo”. Alguém que nunca vai te abraçar. Alguém que nunca vai brigar com você, gritar, te dar um beijo por impulso. Alguém que não vai cair de bêbado com você, que não vai explodir de gordo com você, alguém que não vai morrer de dançar ou ficar sem voz de cantar junto com você.

E isso é certo. O mundo é muito grande para que todas as pessoas se encontrem. O que não é certo é você se tornar espectador de seu próprio desencontro.

Se me pedissem para listar um único defeito que é DO MUNDO e não das pessoas que vivem nele eu diria : Permitir que uma pessoa se encante por outra que jamais vai conhecer.

O dia que mandei Alfonso embora.

Passou tão rápido que eu não consegui perceber que já tinha passado. Passou tão cortante que eu me machuquei e fiquei sentindo uma dor constante por viver em um tempo que já se foi. Passou tão cruel que quando eu me dei conta já repugnava mais da metade das coisas que um dia adorei.

Passou voando e derrubou as máscaras, os biombos, as fortalezas e me mostrou as pessoas. Passou um, dois, três, quatro, cinco anos. De tentativas frustradas, de choros contidos ou desesperados, de sonhos dormindo e acordada, de loucuras sem medida.

Passou os ‘quinze anos’ e o deslumbro daquele primeiro momento. Passou os ‘dezesseis’ e a luta para ter o MEU momento. Passou os ‘dezessete’ e a inconformidade com o desencontro. Passou os ‘dezoito’ de saudade de alguma coisa que nunca aconteceu. Passou os ‘dezenove’ rápido como um avião que chega ao aeroporto, mas doloroso como alguém que espera no desembarque a uma pessoa que não apareceu. Passou os ‘vinte’ com idéias já defasadas, com frustrações eminentes, com acúmulo de (d)esperanças.Passou e parou. Não parou de doer. Parou de passar. Quebrou uma rotina, rompeu uma corrente. Ficou o rastro de saudade intrometida, de sofrimento ressentido, de tudo que um dia era pra ser e não foi.

Mas se tudo passou. Isso passará também. Ficou a certeza de que uma hora as pessoas cansam de tentar, não por covardia, mas porque a dor fica insuportável.

O destino é tão forte que as vezes nem toda vontade do mundo, muda algo que não era para acontecer.

querido distante…

Eu gostaria lhe dizer que nessa noite fria eu espero que você tenha alguém para te aquecer. E também espero que você tenha alguém para abraçar e dizer “que bom que você está aqui”.

Eu quero que você possa comer porcaria jogado no sofá da sala assistindo um jogo de futebol.

Eu quero que você tome cerveja com seus amigos e que juntos possam fazer comentários maliciosos ao ver uma mulher bonita passar.

Eu quero que você sinta falta de um abraço de mãe e que em um dia comum, sem avisá-la, você vá para casa e amasse-a de tanto amor.

Eu quero que todos os dias você sorria por estar vivo e por ter a chance de melhorar.

Eu quero que você leia livros, que você visite museus, que você viaje.

Eu quero que você conheça pessoas e lugares tão incríveis e se isso te custar algum relacionamento sem liberdade, que seja! Eu quero que você seja livre assim, para que eu possa da onde eu estou, observar de longe o seu sorriso.

Eu quero que você chore. Porque quando estamos tristes precisamos chorar. E se você tiver vergonha, eu tenho uma dica: Abrace seu travesseiro e conte a ele o que aconteceu.

Eu quero que você seja você mesmo o tempo todo. Mas o dia que você quiser brincar de alguém que você seja um alguém bem legal tipo um jogador de futebol.

Eu quero que você se canse. Do trabalho, das pessoas, do mundo. E então, que você descanse até de si mesmo para poder continuar.

Eu quero que você fique longe de mim o tempo que for necessário, ainda que esse tempo seja eterno. Porque a distancia me faz te amar de mansinho, de um jeito tão levinho e calmo que me faz suspirar. Mas eu PRECISO de você perto de mim, porque a saudade faz com que eu te deseje tão desesperadamente, tão erroneamente, tão infelizmente que eu não posso suportar.

Eu quero que você encontre o amor. E não estou te pedindo para encontrar o amor aqui, porque eu não preciso que você o encontre eu só sei que ele existe. Encontre-o nos braços de uma mulher bem especial, que tenha um sorriso bonito e te faça sorrir todos os dias quando você acorda e ela está se afogando nos próprios cabelos enquanto respira calma a seu lado na cama.

Eu quero que você tenha filhos, um, dois, dez.. Filhos com a mesma mulher ou com várias. Filhos homens, filhas mulheres. Herdeiros da sua personalidade que embora algumas vezes incompreensível é sensacional.

Eu quero te ver explodindo. De amor, de alegria, de ódio, de rancor. Quero também que você controle a maioria de seus impulsos, mas que deixe alguns guardados para quando eu sentir saudade.

Eu quero que você mate a minha saudade. Afogada, enforcada, estrangulada, envenenada. Mas que você ressuscite-a cada vez que você tiver que ir, para que eu não te esqueça.

Eu quero que você entenda que o que eu escrevo para e sobre você não é algo impessoal. Não adianta alguém copiá-lo e entregar a outra pessoa em um aniversário, porque embora possam tirar seu nome dele é impossível tirar a sua essência.

É impossível que exista outro Alfonso com o cabelo cheio de cachinhos (que as vezes são raspados). Outro homem com aquele sorriso de menino que mesmo quando eu estou irritada e não quero te ver me faz sorrir.  Outro menino que tenha olhos “verde-café” e que quando está com sono os diminui drasticamente, fica com as bochechas rosadinhas e faz com que eu tenha vontade de fazer um cafuné e esperar dormir.

Eu não te quero aqui, ao meu lado, pendurado na parede para que eu possa te tocar quando quiser. Eu te quero aqui, em uma parte de mim tão escondida que nem você sabe que existe (não que você saiba algo sobre qualquer parte de mim).

Eu te quero aí, feliz, menino, homem, velhinho…

Eu não gosto de chegar a essa parte e pensar que daqui há alguns anos seus cabelos serão brancos e talvez te deixarão calvo (um calvo imensamente charmoso). Não quero pensar que você se sentirá mais cansado do que hoje, que não poderá mais beber como bebe agora, que estará sentado em uma poltrona lendo algum livro estranho (talvez El laberinto de la soledad) que você gostava na juventude e agora talvez não faça tanto sentido. Não quero pensar que você terá uma velhinha ao seu lado e crianças sujando sua casa com água do aquário dos peixinhos, já que seus filhos aproveitam de sua ótima situação para deixar que os netos brinquem com as estatuetas de premiações (extremamente merecidas) do vovô.

Eu não quero pensar nada disso porque acreditar que eu passei tanto tempo só te guardando naquela parte escondida de mim dói. Mas eu compenso a minha dor se você puder sorrir (e eu puder olhar bem quietinha, de um lugar bem longe).

Há tanta coisa que eu gostaria de lhe dizer, querido…

Mas nosso cérebro é tão falho que quando temos muito para dizer não dizemos nada.

Há tanta coisa que eu não queria sentir, querido.

Mas nosso coração é tão perfeito que quando nada queremos sentir, sentimos tudo.

No fim de tudo isso, eu só quero poder fechar meus olhos, agradecer a Deus pelo erro divino que me fez tomar conhecimento de você e pedir com cuidado que você possa sentir inconscientemente esse tanto de amor que um dia não caberá só em mim.

Meu adorável (des)conhecido

Eu conheço cada fio do seu cabelo que se enrosca nos meus dedos quando eu te faço um cafuné.

Eu conheço cada veia saltada que você tem nas têmporas e que aparecem só quando você fica nervoso.

Eu conheço todos os níveis e os desníveis da sua voz que mudam confome as emoções que você sempre tenta não demonstrar.

Eu conheço o som da sua respiração que sai quase como um rosnado quando você está realmente irritado.

Eu conheço cada dentinho meio tortinho (e que te da um charme inacreditável) que você tem dentro da boca e que me faz feliz quando você sorri para mim.

Eu conheço cada movimento que você faz com as mãos, principalmente quando você junta as mãos na testa e deixa os polegares de ambas levantados quando quer se acalmar para explicar uma coisa muito difícil de ser explicada.

Eu conheço cada engasgada que você dá quando está mentindo e eu sei que você da uma leve torcidinha de nariz quase imperceptível quando alguém diz alguma coisa que te irrita.

Eu conheço os seus gritos de fúria e angústia quando a torcidinha do nariz não é cabível perante uma injustiça muito grande.

Eu conheço o movimento que as suas sobrancelhas fazem quando você está impaciente mas não quer ser desagradável.

Eu conheço cada pontinho verde que tem dentro dos seus olhos castanhos, e tambem cada pontinho castanho que existe nesses seus olhos verdes e que quando eu fico tentando descobrir se existem pontinhos mais verdes ou mais castanhos me hipnotizam e eu não consigo pensar em mais nada a não ser você.

Eu conheço cada tom arrogante e irônico que você leva dentro de você e isso as vezes me irrita profundamente.

Eu conheço o toque dos seus dedos no meu rosto quando eu fecho os olhos e você tenta me acalmar.

Eu conheço tanto a sua cabeça que quando você fecha os olhos para dormir e eu faço isso ao mesmo tempo, mesmo quando a gente está longe eu posso sentir e eu sussurro mentalmente “boa noite meu bem” e eu sei que você pode me ouvir.

Eu conheço cada maldito impulso que você tem sobre tudo e que muitas vezes te faz meter os pés pelas mãos e me magoar e então quando eu digo que tudo acabou, que eu não quero mais te ver, te ouvir, te sentir, quando eu fico um, dois, três dias ou meses sem falar com você… Você tem o impulso mais poderoso sobre mim, que é o de entrar em todos os meus sonhos e sorrir com os dentinhos tortos, me olhar com esses olhos sem cor definida, acariciar meu rosto e me deixar te fazer um cafuné.

E eu conheço a minha reação de te perdoar e te fazer presente outra vez.

Mas eu desconheço os meus impulsos de sair correndo da minha casa as seis horas da manhã para entrar correndo em um aeroporto e implorar para você ficar.

Eu desconheço as batidas do meu coração quando eu PENSO em você, na sua voz, no seu cheiro, no seu olhar, no seu sorriso.

Eu desconheço os meus choros compulsivos de ódio profundo que começam da sua capacidade indiscutível de me fazer ficar DESCONTROLADA.

Eu desconheço minha insistência e desconheço mais ainda a forma que eu minto para mim e para todas as pessoas perto de mim fingindo que você não tem mais importância nenhuma.

Eu desconheço a força que eu pareço ter adquirido nos últimos anos e que depois de tantas escolhas e renúncias construiram um forte de emoções entre nós dois.

Mas o que eu mais me intriga é o fato de nem mesmo as palavras “conhecer e desconhecer” serem amplas o suficiente para assumir a forma do que eu sinto.

E embora eu não te conheça eu duvido que exista alguém no mundo que o conheça mais do que eu.

(Carolina Ruedas)